2021. Ele finalmente chegou.




Finais de ano tem um efeito engraçado sobre mim. Apesar de, racionalmente, eu saber que a virada do ano é apenas um marco simbólico e que, o dia seguinte, é como todo e qualquer dia seguinte do ano, não deixo de ficar reflexiva e até um pouco apreensiva uns dias antes dela chegar. Nessa última que passou, tenho que confessar que essa sensação apareceu um tanto intensificada. As expectativas após um ano extremamente complexo como o que passou estavam tão altas que, de repente, me vi ainda mais inquieta do que costume.


No geral, a impressão que tenho é que parte desta minha aflição em relação à passagem do ano vem de uma certa exigência do senso comum de que, com a virada do ano, algo (ou tudo) se faça novo. Essa cobrança velada, tão presente nas mensagens bem-intencionadas dos cartões de Natal, Whatsapps, campanhas de TV e das figuras religiosas ou espiritualizadas fazem eu me sentir um tanto pressionada. E se eu não conseguir fazer tudo novo? E se eu fracassar as 365 novas tentativas de ser feliz, de criar a minha realidade, de estabelecer novos padrões, de evoluir na minha carreira, na minha espiritualidade, na minha dieta, no meu propósito de vida e tantas coisas mais? E, dentro de mim, surge um sentimento um tanto subversivo que me leva a questionar o porquê eu tenho que querer e esperar tanto do ano que vai chegar?


É importante dizer que sou uma pessoa que acredita muito (muito mesmo) em evolução pessoal. Na ideia de que temos a oportunidade de crescer e nos tornar melhores a cada dia de nossa existência. Sinto também que, felizmente, quanto mais o tempo passa, mais eu gosto de mim mesma. E não estou falando aqui das rugas, gordurinhas localizadas, cabelos brancos, dores nas articulações e da infinidade de outras pequenas mazelas que assomam o corpo sob a ação do tempo. Mas de uma sensação de paz e tranquilidade que, internamente, vai se solidificando conforme os dias vão passando. Portanto, minhas indagações, de forma alguma têm a intenção de eliminar a esperança de dias melhores. Da mesma forma que não têm o objetivo de minimizar a importância nem criticar as mensagens de carinho e encorajamento recebida dos amigos, parentes e pessoas queridas (e muito menos das sábias palavras de tantos mestres que admiro!). Encontrei conforto e reflexão em muitas delas nos últimos dias! Estou apenas dizendo que, quando sou convidada insistentemente a pensar em todas as possibilidades que novos 365 dias podem trazer, sinto-me um pouco sobrecarregada, um tanto sufocada. Como se o ar de novos 365 dias fosse além da capacidade que meu pulmão tem de respirar. Do que minha cabeça consegue processar e, até mesmo, imaginar. Como se dentro de mim isso ressoasse com uma intensidade que vai além do que sinto capaz de assimilar. Ainda mais depois de tudo que vivi e aprendi com o ano que passou.


Se tem algo que eu entendi em 2020 foi a viver sem esperar muito dos dias a seguir. Fui obrigada a fazer menos planos, a me programar menos, ter menos expectativas e viver mais as possibilidades apresentadas pelo momento presente. Viver um dia de cada vez, foi, para mim, o mote do ano. Meu guia de sobrevivência. A frase que eu disse e repeti para mim mesma infinitas vezes, na tentativa de aplacar a constante angústia de não conseguir prever em absolutamente nada o que dia de amanhã traria para mim e minha família. Confesso que foi um grande choque na minha até então realidade, não poder fazer planos, não poder contar com as ocorrências mais cotidianas e ordinárias, como o ato de levar os filhos na escola, sair para comprar um presente, tomar um café com uma amiga ou se exercitar na academia.


Foi um ano onde não precisei de grandes viagens, de montanhas-russas ou de nenhum tipo de esporte radical para adicionar um tanto a mais de adrenalina na minha corrente sanguínea. Ela já estava suficientemente presente no dia a dia das notícias sobre a pandemia e nos efeitos desta sobre a rotina. Fecha escola, abre escola. Trabalha de casa, trabalha do escritório. Faz estoque de comida, compra apenas o necessário. Economia que colapsa. Lojas e restaurantes que fecham. Famílias se mudam. Desemprego. Incerteza. Pessoas morrendo. Aniversário sem festa. Isolamento. Preocupação. Saudades. Tristeza. Gratidão. Definitivamente não precisei ir longe para viver grandes emoções, para me sacudir, evoluir e sair da minha zona de conforto. Estava tudo ali, ao meu redor, dentro da minha casa, do meu bairro, da minha vizinhança, bem ao alcance das minhas mãos. E a sensação que tive foi que o ano que passou foi como um grande Caminho de Santiago às avessas: uma jornada com muitos desafios físicos, pessoais e espirituais que eu tive a oportunidade de percorrer sem precisar dar um passo fora da minha casa.


Sim, ufa, 2020 já passou, já foi, pronto, acabou! E há, inegavelmente, um alívio na ilusão de que ele ficou ali longe, lá trás, no passado. Mas tenho que compartilhar minha apreensão de ver 2021 chegar com tantas expectativas, tantas cobranças, tantas esperanças, se proclamando pelos quatro cantos como o grande salvador. Para mim, ele poderia chegar mais de mansinho, devagarzinho, se revelando dia após dia, aos pouquinhos, sem muito alarde, sem muitas promessas, nem muitas pretensões. Já fomos suficientemente soterrados pela avalanche de tristezas, incertezas, indagações e transformações do último ano! Agora sinto que quero (e preciso!) de menos intensidade, de algo menos abrupto.


É claro que espero que 2021 seja um ano melhor para todos os nós, para o mundo, para a raça humana! Que venha a vacina, que as aulas retornem, que voltem os beijos e abraços, que a vida volte a pulsar sem tanto medo! Mas, humildemente, confesso o meu desejo de que tudo isso aconteça de uma forma gentil e respeitosa e que a humanidade possa continuar sua caminhada de evolução num ritmo mais tranquilo, confortável e assegurador. Um dia de cada vez.






*clique AQUIpara mais textos da Isabel Coutinho.

© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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