A fuga


Villars sur Ollon é uma estação de esqui. Fica em cantão suíço chamado Vaudois. Perto de Genebra, Lausanne (se bem que, na Suíça, tudo é perto). Eu devia ter uns sete anos e fui passar as ferias com minha família.

Me sentia em casa. Primeiro, porque a cidadezinha era muito pequena. Talvez tivesse umas cinco ou seis ruas, no máximo. Não havia muito como se perder. O risco maior seriam as pistas de esqui, mas a minha capacidade técnica não era para tanto, na época. Era bem iniciante. Eu só esquiava com instrutor e em pistas bem fáceis e próximas.

Segundo, porque todos eram de certa forma, conhecidos e meus pais, ainda mais.

Terceiro, porque sempre íamos em grupos. Famílias amigas do Brasil, visitavam todos os anos a mesma estação e o mesmo hotel. A comunidade brasileira no Hotel du Parc (já fechou) era gigantesca. Até eventos esportivos como “Brésil vs Reste du Monde” eram comuns. E sempre dava empate, para que ninguém ficasse chateado. Tudo construído para ser perfeito.

Fora isso, as refeições eram no hotel. A diversão, muitas delas, também. O que era fora, e éramos supervisionados por algum adulto ou por alguém contratado especialmente para isso. Uma espécie de internato do prazer infantil.

Ou seja, nada poderia causar traumas ou dar errado. A não ser por uma única coisa: a loja de chocolates era fora do hotel. E cabe um destaque: era uma loja de chocolates na Suíça!

Meus pais, para que não ficássemos incomodando o tempo todo e com o objetivo de nos ensinar a gerir nossas economias, davam a meu irmão e a mim, um valor que chamávamos de “semanada”. Todas as sextas feiras, esse valor, em francos suíços, eram depositados religiosamente em nossos bolsos. Era uma festa! O chocolate não entrava nessa conta. Ele era financiado diretamente pelos nossos pais, mas tinham uma cota para evitar “estragar o apetite” para jantares, almoços e essas refeições menos valorizadas, aos sete anos. E quem lá quer comer direito, quando pode ter acesso a um chocolate suíço...na Suíça?

Eu nunca tinha ido sozinho até a loja de chocolates. Mas, lembrava direitinho onde ficava e sabia o caminho e o tempo despendido para chegar até lá.

Também, sabia que haveria um momento onde meus pais estariam distraídos.

Eles sempre fechavam a porta do quarto deles lá pela final da manhã. Meus amigos estariam esquiando, nadando ou sei lá mais o quê. A “mademoiselle” encarregada de nossa segurança estaria almoçando. Crime perfeito! Esse seria o momento perfeito para arquitetar minha fuga.

No dia, logicamente, sexta feira, logo após receber o minha justa remuneração por “eu ser uma criança tão fofa”, aguardei pacientemente para que a rotina e minhas previsões se confirmassem. E tudo correu como o previsto.

Sorrateiramente, saí do hotel e segui direto para a loja de chocolates. Minha boca salivava (já era umas onze horas da manha e minha fome já era bem grande).

Eu sabia que teria até as 13 horas, quando seria procurado pela “segurança” para o almoço em família. Fiz as contas e daria tempo.

Cheguei na loja e comprei todos os chocolates que sempre desejei (e não podia porque tinha que ser comedido quando era acompanhado por meus pais).

Principalmente, os bonequinhos de marzipã. Eram esquiadores, patinadores e jogadores de hockey feitos de marzipã. Foram vários. Não lembro quantos. Mas, foram muitos! Me esbaldei. A ponto de perder a hora. E não considerei em meu plano de fuga, que se para descer até a loja, seria fácil justamente por ser uma descida, na volta teria que encarar uma subida. E demandaria mais tempo. Muito mais tempo! É...não daria tempo. E não deu.

Havia um outro problema sem ser previsto. Minha capa era branca e eu não teria a habilidade suficiente para evitar que eu me sujasse. Isso poderia me entregar. Mas, não havia outro jeito. Era hora de voltar.

Quase uma hora mais tarde do que havia previsto, consegui avistar o hotel. E, conforme me aproximava, percebia que ele estava mais bem mais movimentado do que quando eu havia deixado. Tinha até carro de polícia, ambulância e muita gente. O que teria acontecido de tão serio na minha ausência?

Cheguei e foi uma gritaria geral. Não sabia que eu seria uma peça tão importante para desvendar o mistério. Me senti o rei da cocada (ou melhor, no caso, o rei do marzipã). Foi um misto de gente brigando comigo com outras me abraçando. Um zoeira total!

De repente, todos sumiram. A policia foi embora. A ambulância também. Só sobraram meus pais com o famoso: “- Precisamos conversar”

E a conversa não foi agradável. Nem um pouco. Meus vencimentos foram cassados e muitas das minhas atividades, também. Mas, fiquei famoso na cidade. E por muito tempo.

Em 2012, quando depois de muitos anos, resolvi voltar para matar saudades daquele tempo, ao fazer reserva em um outro hotel (aquele havia fechado) e dar meu nome, a senhora da reserva, me pergunta se eu tinha algum parentesco com a criança que havia se perdido, há muitos anos.

Não acreditei. Perguntei como ela sabia da história? Me respondeu que fora ela quem havia me vendido os marzipãs, quando de minha fuga. Me identifiquei e quando voltei, demos boas risadas, comendo marzipã juntos na loja que existe até hoje.

E não é famoso na Suíça, por um dia? Mas, valeu a pena.


Roberto Halfin






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© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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