A Mãe




Quando chego a meu carro, estacionado em frente a Central de Flagrantes, vejo uma mulher encostada nele, falando no celular, aos prantos. Em respeito, aguardo um pouco para que termine a ligação e, inevitavelmente, ouço o que fala. A filha se desentendeu com ela por conta de um namorado, a quem reputava marginal e usuário de drogas e, assim , naquele momento, após dois meses de afastamento, estava ali porque tomou conhecimento da prisão da jovem que tinha acabado de assaltar um ônibus. Confesso ter ficado tocada diante daquela dor daquela mulher, desesperada pela falta de conhecimento e de recursos financeiros para, em meio a uma avalanche de amor materno, tentar algo pela filha, de maneira que lhe ofereço uma orientação quanto às providências que poderia tomar para uma assistência jurídica gratuita, afinal por aqui , graças a Democracia e a Constituição, a todos é dado o direito de se defender! Sem perguntas, ilações ou julgamentos sobre a conduta transgressora da filha, afinal à Justiça caberia o encargo, interesso- me, tão somente, em auxiliar a mãe, porém escuto o desabafo: “Moça, sei que sou culpada porque tinha que ter feito qualquer coisa mais forte pra ela não ir morar com aquele vagabundo. Acredita que dei surra, fiz até trabalho ? Eu devia ter ido buscar a menina na casa dele a força ... ele usa droga ... meu Deus...” “Acalme-se, senhora, não se culpe porque poderia ter feito o que fosse e assim mesmo ela iria”, digo. “Sua filha fez escolhas, todos nós temos a liberdade de fazer escolhas, não poderia ter feito nada mais ...” Balança a cabeça concordando exatamente com o que lhe disse, respira mais aliviada e pondera:” É verdade, ela tá apaixonada, tá cega ..mas assaltando ônibus??. Repete insistentemente – “Sou honesta , não foi isso que ensinei a ela”.

Por uns instantes fico ali, ouvindo aquela mulher profundamente dividida entre revolta, desolação, consciência da necessidade de punição, coração batendo no cordão umbilical. Reflito sobre o quanto as dores e os sentimentos humanos são diversos, semelhantes, paradoxais. Vou embora. Tento um diálogo com Meus Botões sobre o ocorrido, mas, tristes, não querem papo. Então, ligo o rádio do carro e aí me vem pela caixa dos peitos, Caetano e suas crias: “Mel, a prata, o ouro e a rã Cabeça e coração E o céu se abre de manhã Me abrigo em colo, em chão Todo homem precisa de uma mãe. Todo homem precisa de uma mãe” Claudia Lacerda






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© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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