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A VIDA É UMA ÓPERA


Sempre muito cético no quesito misticismo, apesar do uso um pouco equivocado dessa palavra de origem grega (skepsis), que significa "exame", nunca acreditei em ciganas que perambulam pelas ruas e abordando-nos com suas previsões do futuro.


Naquele sábado, na Praça Benedito Calixto, fui em busca de algum objeto de decoração para compor minha sala de jantar. Gosto de pratos e talheres “de época” e aquela praça, no coração do bairro boêmio de Pinheiros, sempre me encantou.


Rodando por entre as barracas, admirando todo tipo de antiguidade, fui abordado por uma mulher de cabelos escuros, sobrancelhas grossas, nariz ligeiramente avantajado, trajando um vestido vermelho longo, com rendas na barra e muitas bijuterias penduradas no seu corpo.


Junto com aquela mulher, de olhar penetrante e sedutor, um aroma de incenso entrou pelas minhas narinas e fiquei inebriado.


- Posso ler a sua mão? - Perguntou ela fitando atentamente meus olhos.


- Sim, claro! - Respondi sem pensar.


Era algo que jamais o faria em situações normais, no meu estado pleno, são.


- Você fará uma grande viagem, conhecerá seus antepassados e reviverá uma grande história de amor! - Disse ela rispidamente.


Sem me pedir um centavo sequer, um outro cigarro, já que aquele que estava na sua boca aproximava-se do fim, sumiu em meio aos tantos objetos antigos expostos.


Virei para um lado e não mais a vi. Virei para o outro lado e o vendedor de LPs usados olhava assustado para mim.


- O Senhor viu aquela mulher de vestido vermelho? - Perguntei a ele.


- Ah! Essa mulher aparece por aqui algumas vezes e, dizem, que ela não é dessa época. Eu não entendo muito o porquê, mas dizem que ela é espanhola e viveu nos anos 1.800. Mas, ela aparenta ser jovem para ter mais de 200 anos! - E caiu na gargalhada.


Confesso que aquilo tudo me deixou bastante incomodado. Minha cabeça doía, aquele aroma de mirra me deixou enjoado e decidi voltar para casa, sem nenhuma peça adquirida.


O tempo passou e alguns meses após esse “episódio”, da qual nem mais me lembrava, fui convidado para participar de um congresso médico internacional na Espanha, em Madrid.


Sempre que faço viagens internacionais profissionalmente, costumo aproveitar um ou dois dias para conhecer algo na cidade sede do evento. Acontece que Madrid é uma cidade que já estive algumas vezes e, na minha opinião, é o destino mais charmoso daquele país, com muita personalidade.


Assim, pensei em retornar a Sevilha, uma cidade que me encantou quando estive há alguns anos.


Fui para o congresso, fiz todos os contatos necessários, revi grandes amigos e, no final da tarde do último dia, peguei o trem rumo a capital da Andaluzia. Três horas depois, lá estava eu andando pela Plaza de España.


No dia seguinte, acordei e fui dar uma volta pela cidade, afinal meu trem partiria no fim daquela tarde.


Entrei no Parque María Luisa e sentei-me de frente para o Museu de Artes e Costumes Populares. Senti um certo cansaço acumulado daqueles dias de congresso e fechei os olhos. O dia estava ensolarado e muito quente.


Quase adormecendo naquele abafado dia de verão, ouvi uma canção que me era familiar. Não sei o porquê, afinal sou descendente de italiano, mas aquela canção de origem cubana era conhecida. Eis que uma voz feminina “sussurra” ao meu ouvido:


- Se eu te amo, tome cuidado.


Sim, era a Habarena tocada em violão e aquela voz também era conhecida!


- Você não se lembra de mim? Perguntou ela. Continue de olhos fechados, você está revivendo um passado distante. Concluiu aquela mulher.


De olhos fechados, em êxtase, fui capaz de ver uma mulher de vestido vermelho, dançando sensualmente aquela música de origem latina. Com cigarro na boca, uma força incrível, poderosa e independente, aquela mulher era a imagem da cigana que conheci na famosa feira de antiguidades.


- José! - Grita desesperadamente aquela mulher.


O susto foi tão grande que abri meus olhos e nada disso era real. Nada de música, nada de dança, nenhuma mulher sedutora próxima a mim. Apenas um arrulho irritante e o farfalhar de alguns pombos brancos ao meu redor.


Não estou vivendo em 1.875, não me chamo José e aquela mulher não pode ser a Carmen.


Quem quiser, que assista a ópera Carmen no confortável Teatro Bradesco, na cidade de São Paulo e tire suas próprias conclusões.


Vinho sugerido: Barbadillo Pedro Ximénez Sherry (vinho de sobremesa)

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