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Almoço em Família



Almoço em família é sempre divertido, principalmente quando os filhos começam aparecer com seus pares. Existe a curiosidade de saber que tipo de criança eles foram, aí vem as estórias do que aprontavam.


Para eles é quase sempre constrangedor, para os novos namorados é bem divertido.

E para crianças que cresceram no interior as histórias são ricas e bem criativas.


A imaginação parece não ter limites.


No último almoço de ação de graças a família se reuniu na mesma casa onde cresceram. Dois filhos casados e um solteiro com a namorada, retornam para visitar os pais. 


Antes do almoço todos participam da missa na igreja matriz da pequena cidade para agradecer o ano que logo findará. E também para encontrar velhos amigos a mostrar suas novas famílias, para orgulho dos pais.


Em um momento da infância tinham eles onze anos a irmã mais velha, nove o garoto do meio e sete o mais novo. 


Geruza reclamava pra mãe que estava sempre cansada e com lerdeza. Já tinha menstruado e essa falta de ânimo começará a atrapalhar nos estudos. Levada ao médico foi constatado através de exame déficit de ferro. - Nada para se preocupar, comer mais feijão e tomar uma vez por semana noripurum vai ajudar a melhorar a anemia, que é mais ou menos comum na idade da sua filha. Disse o médico para Maria, à mãe. 


Por via das dúvidas Maria delibera que todos os filhos devem tomar para prevenir, o que desagrada muito os meninos.


Eles tinham uma semana bem ativa com os estudos e os trabalhos que faziam no pequeno sítio onde viviam. 


Toda segunda feira a mãe aparecia com o ferro para pingar na boca da criançada.


Tomaram por bons meses até que João o mais novo dos irmãos se rebelou e não queria mais tomar. Inconformado bolou um plano que todos teriam que concordar e fazer um pacto de nunca contar pra mãe mesmo que brigassem entre si.


Primeiro tinha que tomar no domingo, dia que os pais iam para a missa e eles desfrutavam de liberdade sem vigilância por quase três horas, depois alguem tinha q tomar no lugar deles. 


Tinham que cumprir os afazeres do sítio, cuidar das galinhas, arrumar suas camas.... coisas simples que davam conta. Esse era o preço para ficarem sozinhos.


João pensou, pensou e ponderou que se Geruza estava com anemia e tinha que comer melhor o que estava errado era o que comia.


Gênio!


Ele tentou pingar o remédio nos tomates do pomar, mas esses manchavam, assim como a alface e no repolho. Passou algumas semanas fazendo experimentos no pomar quando teve a brilhante ideia de dar para as galinhas depois de ver uma que havia fugido ciscando onde havia caído algumas gotas.


Pronto, estava resolvido, as galinha tomariam no lugar deles e ainda estariam se nutrindo do suplemento por tabela. 


Errado não estava!


Uma verdadeira força tarefa foi montada, Mateus, o mais ligeiro dos irmãos pegava as galinhas, Geruza a mais jeitosa pingava as gotinhas e João o dono do plano fiscalizava se estavam tomando direitinho e limpava o bico para a mãe não notar nada de diferente. As galinhas esperniavam, bicavam, fugiam mas eles se mantiam firmes no propósito da missão.


E passaram um ano todo fazendo isso, sem que nunca ninguém quebrasse o pacto, até aquele almoço muitos anos mais tarde com a família toda reunida em volta da mesa como sempre faziam.


Riram e se divertiram com as traquinagens deles pequenos, e revisitaram lugares que guardam quentinho no coração de uma infância ricamente bem aproveitada.


Fiquei pensando na sorte que as galinhas tiveram com a mãe das crianças em não colocar pregos enferrujados no feijão, prática que era comum nos rincões.


Keli Lambert


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