Amélia




"Nunca vi fazer tanta exigência

Nem fazer o que você me faz

Você não sabe o que é consciência

Nem vê que eu sou um pobre rapaz

Você só pensa em luxo e riqueza

Tudo que você vê você quer

Ai, meu Deus, que saudade da Amélia

Aquilo sim é que era mulher

Às vezes passava fome ao meu lado

E achava bonito não ter o que comer

E quando me via contrariado

Dizia: Meu filho, que se há de fazer

Amélia não tinha a menor vaidade

Amélia é que era mulher de verdade

Amélia não tinha a menor vaidade

Amélia é que era mulher de verdade;"

Ai que saudades de Amélia (Ataulfo Alves - Mário Lago)

A mudança do comportamento feminino é um tema recorrente desde os meados do século passado. As mulheres conquistaram seu espaço enquanto ser humano, vontades, desejos e até como consequência, vem dominando com maestria o mercado de trabalho. Muito também se debate sobre como os homens lidam com isso e o que fazem com seu machismo.

Alguns tópicos dessa discussão, até já se tornaram ultrapassados, como se um homem deve "obedecer" e até aceitar uma mulher como "chefe" em seu trabalho. São ranços de uma época em que o papel feminino era visto como inferior. Uma época de acomodamentos onde a mulher, de certa forma, gostava (ou fingia que) de "servir" e o homem se sentia mais masculino, apenas por ser o "provedor".

Mas, será que tudo isso ainda é verdade nos dias de hoje? E a questão não se resume apenas no ponto de vista social. Será que o homem de hoje, mesmo que diga o contrário, quer mesmo uma mulher coadjuvante? Pois, admito que, de minha parte, prefiro a protagonista. A mulher que eu sinta que tenha me escolhido tanto quanto eu a escolhi. A mulher que não abra mão de si mesma e nem por isso deixe de ser carinhosa, afetuosa e até submissa, quando isso lhe parecer apenas uma fantasia interessante para apimentar a vida a dois e, porque não, seus próprios fetiches.

Penso que a busca pelo protagonismo na vida de ambos é a chave para uma relação ser duradoura. Não falo de egoísmo onde cada um buscaria a sua parte na relação para ser o(a) provedor(a). Se isso acontece, acaba-se perdendo a magia e com ela, o respeito. Falo de um protagonismo. onde a certeza da auto-suficiência é tão confortável que ceder é um ato de amor e jamais uma concessão.

As vezes, ou até com uma certa constância, ouço mulheres reclamarem que os homens estão menos masculinizados (mesmo que mais resignados com o espaço conquistado pelo sexo feminino). E, por outro lado, vejo homens referenciando as saudades na "velha" Amélia, como se ela tivesse sido o ideal da mulher de verdade e leia nessa verdade, uma saudade do que seria idealizado, logo, mentira. Ou, mera fantasia.

No momento em que nos imaginamos esses homens e mulheres, nos enxergamos como filhos e filhas e não como homens e mulheres. Buscamos referências do passado, quando estamos, mais do que no tempo, de sermos as nossas próprias referencias, tanto no espelho como na vida. Estamos com medo do que nos tornamos e queremos e nos transformamos na busca do ideal que um dia imaginamos porque nos disseram e não por acreditar que nos tornaríamos felizes assim.

Não sei se Amélia foi uma mulher que deixou saudades. Deve até ter sido. Mas, no fundo, quero uma mulher que tenha a fome dos Titãs e o protagonismo Greta Garbo.


E vocês?


Roberto Halfin






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© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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