Amor Fake




A pedido de um amigo, atendi uma mulher que estava passando por uma situação vexatória. Conheceu uma pessoa em um site de relacionamento e, durante meses, manteve um namoro virtual, trocando, além de juras de amor, nudes.

Depois de quatro ou cinco meses, preparou-se para recebê-lo no réveillon, em Salvador, todavia no churrasco de Natal da firma onde trabalha, a esposa do chefe lhe avisou que os nudes estavam circulando na net, com o título: "A putinha da Bahia".

O "amor fake", na ocasião, estava sumido há uns dias, o que se tornou definitivo, sem rastros, contatos e sem a identidade de quem realmente era aquele que aparecia da tela do computador como um sujeito apaixonado e bem intencionado.

Os nudes viralizaram e ela passou a ser alvo de comentários malditos, de piadas e muitos constrangimentos, a ponto de optar por se mudar do prédio onde residia há anos, de pedir demissão do trabalho. A quebra de confiança, da privacidade, a sordidez, o fato de ser enganada por um cafajeste que abusou de sua boa de fé passaram a ser irrelevantes, cedendo espaço para o julgamento infame dos que se interessam pela conduta sexual alheia para apontar dedos moralista e hipócritas, fazendo com que a condição de vítima fosse trocada pela de vilã.

Mesmo sabendo que a questão envolvia aspectos que ultrapassavam a prática criminosa para se apresentar também como o resultado de uma construção social em torno da banalização do corpo feminino, da desqualificação que se impõe ás mulheres por determinadas posturas, minha mente de advogada perguntou:” em algum momento você não desconfiou de que a aquela pessoa por poderia não ser o que dizia?” Ela me responde negativamente.

Era uma mulher jovem e estava acompanhada pelo pai, que ficou calado todo o tempo, até a hora de sair quando me disse:


”- O problema foi que ela se apaixonou Dra.”

“- Quem nunca?“ - respondo, enquanto aperto sua mão na despedida.

Encaminhei o caso a um advogado criminal e fiquei torcendo para que o "namorado fake" fosse descoberto e penalizado com o rigor da lei, ao tempo em que tentei imaginar se ao contrário fosse, ou seja se ela quem divulgasse os nudes dele o que aconteceria?

Absolutamente nada, a menos que o varão tivesse algum problema com o tamanho de seus documentos, ser viril e pegador é o que se espera de um homem no mundinho segregador e machista em que ainda vivemos. Meus fidelíssimos Botões, seguem me cutucando sobre o quanto é difícil ser mulher, bem assim que até os mais espertos podem ser pegos pelos caprichos e pela insensatez do coração...


Assumindo os vocais, Djavan: "A paixão, puro afã, místico clã de sereia, castelo de areia, ira de tubarão, ilusão ...


Claudia Lacerda




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© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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