Casamento


No salão de beleza, uma mulher se arruma para o próprio casamento. Rola o comentário, em tom de fofoca:


- Mas o casamento não é bem um casamento... vão morar em casas distintas porque ambos são separados, tem filhos adolescentes e temem que o convívio possa trazer desavenças, desgastes...


Uma mãe, com as duas filhas jovens, comenta:


- Tem um ditado que diz que quem casa quer casa... por isso que estão se perdendo os valores da família... Tem que ter seu lar... Digo todo dia às minhas filhas que o melhor da vida é a família...


Sinto um ardor no abdômen...

A filha, mocinha casadoira, retruca:


- Quero casar para viver na mesma casa de meu marido. Não aceitaria morar separado jamais...


A irmã se supera:


- Eu já não aceitaria, de jeito nenhum, casar com um homem que tivesse filhos, não dá certo nunca!


Então, sinto uma pontada forte do lado e Meus Botões da Medicina Chinesa alertam: "Não se aborreça, pode ser fígado !!!”


Tento me abstrair, fazer cara de planta, porém se tornou impossível não ouvir a conversa. Todavia, para não para sobrecarregar minha produção de bílis, nem contaminar com idiotices minha beleza recém adquirida, continuo em silêncio.


Uma senhorinha, com uns quase oitenta, entra sem ser chamada na roda para desopilar meu fígado congestionado.


- Meninas deixem de ser bobas! Lutem pra ter um carro que quem tem carro vai onde quer e não precisa de marido! Cuecas penduradas na área de serviço é dor de cabeça. Se nascesse no tempo de hoje eu só teria era ficante.


Ops, reconheço que meu mal tinha cura e vou me restabelecendo.


A mãe, fulminando a Dona Coisinha com os olhos, nem teve tempo de rebatê-la porque ela continuou:


- Só aceito me casar hoje se for pra viver em casa separada!


Sinto uma melhora súbita !!!


Então a mãe, indignada, apela para uma conotação religiosa:


- Uma família , precisa de um lar porque o casamento é uma coisa de Deus.


No entanto, minha mestra não se rende:


- Casamento é de Deus mesmo, mas morar na mesma casa pode ser coisa do Diabo...vá me dizer que tem dias que você não tem vontade de dar suas bufas em paz, sem ninguém perto? (risos)


Climão e a tais alturas, eu no Nirvana.


A vida e o casamento alheio seguem sem dó e sem piedade na Medina, enquanto sigo com Meus Botões pensando sobre modelos, moldes de família, casamento, escolhas, liberdade...


Olho para as moças cheias de certezas e para Dona Coisinha que é a própria imagem da desconstrução de conceitos. Olho para mim mesma, para a mãe da minha faixa etária e para uma espécie de abismo que separa os nossos olhares sobre as mesmas coisas...


Talvez, o grande sentido da vida passar seja o de descobrir que as verdades absolutas vão se tornando verdadeiramente relativas e que se não há fórmulas prontas para resolver nossas equações, quem dirá as alheias!


Unhas prontas, levanto para tomar o caminho de casa, cochicho no ouvido da senhorinha:


- Quando crescer quero ser igual a você... - sorrimos.


Antes de sair vou em direção à noiva para desejar boa sorte e ela, muito emocionada, me mostra a foto do noivo.


Para tudo produção!!!!!! !!!


Mesmo sem procuração da nubente, saio gargalhando por dentro só de pensar na cara das inimigas do "Tribunal do Salão", vendo aquela fotografia.

Como é? É LINDO que chama ???


Claudia Lacerda






*clique AQUI para mais textos da Claudia Lacerda.

© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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