Coco e Kiki ou Mulheres....escravas de si próprias? (texto de agosto de 2014)




"Eu criei um estilo para um mundo inteiro. Vê-se em todas as lojas "estilo Chanel". Não há nada que se assemelhe. Sou escrava do meu estilo. Um estilo não sai da moda; Chanel não sai da moda." - Coco Chanel


Dentro da redundância que toda mulher é, por definição, algo indefinido e contraditório e que reside justamente nessa dissonância cognitiva, o principal objeto de desejo masculino, mesmo que para alguns espécimes dessa categoria, isso seja confundido com o sexo puro, simples e direto, a questão é que a inteligência feminina é pouco entendida pelos homens. E é assim mesmo que deve ser.


A sagacidade feminina é que ela assume seu lado fêmea justamente no ponto em que alguns homens sejam capaz de captar, mas jamais entender. Não cabe ao protótipo masculino compreender a mulher. Mas sim, saborear a incompreensão. Buscar atalhos, caminhos para que, em um desafio que alterna entre sexo, conversas, atitudes, olhares e risos, consiga tirar desta fêmea seus mistérios, sem tentar desvendá-los. Apenas, usufruir. E respeitar essa distância.


Qualquer tentativa de explicação será sempre confundida com invasão. Até porque nós homens não temos o timing e a delicadeza necessárias para investigar, sem deixar rastros. No mais das vezes, somos péssimos mentirosos, mesmo que continuemos a exercer a mentira e acreditar nas mesmas. Mas, apenas nós nos convencemos. A mulher, quando muito, se for interessante para a ocasião, nos concede o poder da dúvida que acreditaram em nossas versões, mesmo que, para os homens, transpareça como uma verdade absoluta.


No filme Meia Noite em Paris de Woodie Allen, o único personagem misterioso é "Adriana" interpretada pela maravilhosa atriz Marion Cotillard (que também foi Edith Piaf no cinema) e começa como amante de Picasso e pela qual Gil se apaixona. Lógico que a busca sobre quem Allen teria se baseado para desenvolver a personagem se torna intensa e os críticos chegam a dois nomes: Marie Thérèse Walter que tinha 17 anos quando Picasso a conheceu e ficou oito anos com o pintor e teve uma filha de nome Maya. E, a outra amante, Dora Maar, que ele conhece em 1935 e o relacionamento extra-conjugal também dura por quase oito anos. A personagem do filme, porém, também informa que fora amante de Modigliani e Braque. O que não confere com as amantes acima citadas.


Prefiro jogar minhas suspeitas que Adriana foi baseada mais em Kiki de Montparnasse. Nascida em uma família miserável em 1901, em Châtilon-sur- Seine, deixa a Bourgogne com 12 anos e vai para Paris onde é recolhida por Soutine, posa para Modigliani e Man Ray (os dois são mencionados no filme) e se torna amiga e amante de diversos artistas na década de vinte.


“Kiki era maravilhosa de se ver, sendo seu rosto naturalmente bonito, ela o havia convertido em obra de arte, tinha um corpo prodigiosamente belo e uma voz agradável…. Kiki foi sem dúvida a rainha desse bairro de artista, sonho e destino de milhões de pessoas nos anos 20, e chegou a simbolizar tudo que oferecia Montparnasse”,

(Ernest Hemingway).



Certa vez, Kiki escreve "Me voilá de retour a Montparnasse, que me parait le pays de la liberté".


A exemplo de Chanel, Kiki também criou um estilo cujo foco era despertar nos homens e, por que não dizer, em si próprias um estilo onde podiam pairar soberanas suas belezas exteriores, mas principalmente ter em suas rédeas, o poder de sedução. E este poder as transformou em personagens e escrevas de si próprias. Na essência e na moda. E talvez, eternamente na história e nos corações e fantasias masculinas.


Creio que o melhor caminho para aproveitar as mulheres não reside em tentar entende-las. Mas, escutá-las e prestar atenção em mulheres do passado apenas como uma referência do presente. Estas não se encontram em manuais, mas nos grandes artistas e escritores. E, principalmente, em nossa capacidade de percepção...


Sempre fui um fã incondicional das mulheres. Não apenas no sentido estético, psicológico ou humanitário. Estes sempre, de alguma forma, chamaram atenção da humanidade. Mas, sou um fã da natureza feminina que sempre esteve um patamar acima do nível da compreensão masculina padrão.


Por outro lado, os homens que se dedicaram a interpretá-las e não apenas tentar compreender seus movimentos e/ou insinuações conseguiram capturar de forma exemplarmente feminina os fragmentos que mais encantam aos homens. Fragmentos estes tão sutis e tão característicos que escapam até das próprias mulheres. Um exemplo disso é que as melhores personagens femininas foram criados por homens em seus devaneios femininos na arte de escrever, cantar, filmar e sobretudo, sonhar. A ponto de negarem a capacidade de absorver o sentimento feminino através da arte, embora o fazendo.


Hoje vou me concentrar em uma personagem muito citada, odiada por algumas, mas que poucos a conhecem: Julia D'Aiglemont. Mais conhecida como a mulher de trinta anos de Honoré de Balzac. Uma mulher que ousou desafiar uma sociedade napoleônica através da sua capacidade de amar o proibido. Onde proibir era uma prerrogativa social e, leia-se neste social, um universo patriarcal e limitado (mudou isso?). "- a mulher, e principalmente a mulher moça, tão grande pelo espírito como pela beleza, jamais deixa de consagrar sua vida àquilo a que a natureza, o sentimento e a sociedade a impedem inteiramente. Se essa vida vem a falhar e se ela continua na terra, experimentará os mais cruéis sofrimentos, pela razão que torna o primeiro amor o mais belo de todos os sentimentos. Porque essa desgraça não teve jamais um pintor nem um poeta? Mas será possível pintá-la? cantá-la? Não. A natureza das dores que ela engendra escapa a análise e às cores da arte. De resto, estes sofrimentos nunca são confiados: para se consolar deles uma mulher é preciso adivinhá-los, porque, sempre amargamente contidos e religiosamente sentidos, eles permanecem na alma como uma avalancha que, precipitando-se num vale, destroça tudo antes de encontrar seu caminho. Julia estava tão abismada nesses sofrimentos que por muito tempo ainda permanecerão desconhecidos, porque tudo no mundo os condena, ao passo que o sentimento os afaga e a consciência de uma verdadeira mulher os justifica"


O amor proibido continua proibido. O amor proibido continua sendo amado, o amor ainda é calcado nos sentimentos e o sofrimento da mulher talvez tenha encontrado novas formas de expressão ou de solidão. Mas, terá sido uma solução confiável ou uma nova justificativa?


Obra citada:

Honoré de Balzac - A mulher de trinta anos - Paris - 1844 -

Editora L&PM Editora - 1984


Roberto Halfin





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© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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