Compre umas cocadas



Nas águas mornas da praia de Moreré (povoado na ilha de Boipeba, município de Cairu- Bahia) primeiro vem Enzo, 5 anos, sozinho, no deleite do banho de final da tarde. O menino sabia nadar, mas tomou certa distância e com receio de lhe faltar fôlego, chamei para conversar e assim fui me deliciando com os relatos de suas imaginárias caçadas a tubarões, baleias e caçonetes.


O pai, depois de algum tempo, vem a procura do menino, gritando seu nome pela praia. Tratava- se de Everaldo, 30 anos, 4 filhos, vendedor de cocadas. Conversa vai e vem, Everaldo, na sua simplicidade, contou-me sobre suas lutas e dificuldades de sobrevivência nos meses em que chove e os turistas somem, até que, com lágrimas nos olhos, disse:


- Fui preso, estou respondendo processo.

- Mas o que houve, Everaldo?

- Quebrei o hospital, chutei a porta de vidro, joguei o prato de comida do médico na parede. O policial me segurou, daí fui preso.

- Você estava bebendo Everaldo?

- Não! Minha filha teve febre muito alta que não passava. Sai do Moreré com ela, não tinha médico em Boipeba (cerca de 40 minutos de trator) o hospital de Valença (cidade há pelo menos 1 hora e meia de barco) estava lotado, fui para Nazaré (outra cidade próxima). A menina deu convulsão. Quando cheguei lá com a menina muito mal, disseram que o médico não podia atender porque estava almoçando. Eram 11 e meia da noite. Fiquei doido, sai quebrando tudo e fui buscar o médico no almoço. O médico atendeu minha filha, mas ela terminou morrendo... Fui preso porque *abotoei o médico e quebrei a porta do hospital ! Depois voltei pra pedir desculpas ao médico, mas ele não me recebeu...


O dizer a Everaldo? Que médico também é gente e como tal, as 11 e meia da noite, trabalhando sem almoçar, já não devia se aguentar de pé? Que, pelo menos, boa parte dos pais que conheço seriam capazes de, em iguais circunstâncias, quebrar um hospital no desespero pelo socorro a seus filhos?

Que quebrar hospital, agredir médico , tal qual como desviar recursos da saúde são crimes e não se resolve com apenas um pedido de desculpas? Que em um país com desigualdades sociais tão severas, precisamos de tantas coisas, inclusive e principalmente de um sistema de saúde mais eficiente, com mais médicos e hospitais?


Olhei para Everaldo, pensei na sua aventura de viver sem recursos nem perspectivas, em suas crianças, no atendimento básico á população, no preço dos planos de saúde. Senti tanto por aquele pai, por sua menina, pelo médico, por todos nós. Procurei, sem encontrar, palavras para dizer a Everaldo... Foi então que, Meus atentos Botões, cochicharam no meu ouvido: “Compre umas cocadas...”


Claudia Lacerda






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