De onde surgiu meu desejo de ter asas e voar




Estava numa sala de espera, aguardando o médico me chamar para um procedimento, que claro, não queria fazer.


Ali sozinha, olhei pro teto e vi uma grande claraboia que iluminava todo habitante, pensei em Hermes, o deus grego, que ora é retratado com asas nas sandálias, ora nos pés.


Entre as funções mais comumente ligadas a ele na literatura grega estão as de ser o mensageiro dos deuses, e o deus das habilidades da linguagem, do discurso da eloquência e da persuasão, mas uma que chama atenção está ligada as intrigas e razões veladas: a fraude e ao perjúrio. 


Talvez por isso seja também o deus dos ladrões.


Reza a lenda que era filho de Zeus e da ninfa Maia. Nasceu em uma caverna no monte Cilene, na Arcádia. Já no dia de seu nascimento demonstrou enorme precocidade, pois fugiu do berço e foi até a Tessália, onde seu irmão Apolo pastoreava um rebanho de gado bovino.


Aproveitando um momento de distração de seu irmão, roubou vários aninais, amarando galhos de árvore no rabo de cada um deles, de modo a apagar os rastros. Levou-as através da Grécia até Pilos, onde sacrificou dois deles, cortando-as em doze pedaços, um para cada um dos deuses do Olimpo.


Então, Hermes escondeu os outros restantes e voltou para a caverna onde nascera. Lá, encontrou uma tartaruga, que matou, limpou e usou o casco, abrindo-o ao meio e nele colocando cordas que teceu com as tripas dos animais sacrificados.


Inventou assim, a lira.


Nesse meio tempo, Apolo, que conseguira de uma testemunha a identidade do ladrão, tinha ido à sua mãe, Maia, relatar a façanha de Hermes e exigir seus animas de volta. Maia não acreditou em Apolo, mostrou o pequeno dormindo no berço em cueiros e ainda censurou o filho por acusar o irmão.


Apolo recorreu, então, ao pai, Zeus, que deu ordem à criança para devolver os animais roubados.


No entanto, Apolo viu a lira criada por Hermes, apreciou o som que ela produzia e aceitou-a em troca dos animais roubados. Mais tarde, Hermes inventaria também a flauta e a trocaria pelo cajado de Apolo que dava, a quem o possuísse, o dom da profecia.


Orgulhoso da sagacidade de Hermes, Zeus designou-o para ser seu mensageiro e prestar os mesmos serviços a Hades, o deus dos infernos. Por isso, na luta entre os deuses e os gigantes, Hermes usou o capacete de Hades, que tornava invisível quem o colocasse sobre a cabeça e matou assim, o gigante Hipólito.


Minhas asas não vieram, tão pouco consegui sumir da clínica, porém meu desejo de retratar pé alado permaneceu e assim, com licença poética,  esculpi a minha representação de Hermes.


Keli Lambert


© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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