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Diálogos insanos



Gil, recifense, é uma figura engraçada.


O conheço há uns 4 anos, ele é subgerente do estacionamento onde deixo o carro. Tem um sorriso largo, fácil, doce, como doce de batata-doce, e é muito educado.


Nas férias escolares, ele pede para a mulher trazer o menino para passar uma temporada com eles em São Paulo, numa edícula nos fundos do estacionamento.


O menino é esperto e ligeiro. Faz conta de cabeça, passa cartão dos clientes enquanto Gil manobra os carros. Converso com ele sobre coisas que gosta, escola e futebol.


Sua esposa é tão engraçada quanto ele. Combinam.


Recentemente, Gil ganhou dois ajudantes para lavar os carros. Desse dinheiro extra que tira, um quarto é para despesas com água, o resto é dele e dos ajudantes. Os ajudantes são mais velhos que Gil, devem ter entre 50 e 55 anos, e são bem atrapalhados.


É ele, Gil, quem me avisa quando tenho que lavar o carro. Tenho para mim que ele ouve a previsão do tempo de manhã e, ao menor sinal de 50% de chance de chuva, ele diz:


"Tá bom de lavar hoje, heim, dona Keith*?"


"Vai chover hoje, é, Gil? Que garantia me dá?"


"Oxi, a mesma do salão de cabeleireiro, até o portão eu garanto que não chove!"


É tiro e queda, lavo e chove. Aliás, se alguém estiver precisando de chuva, me avisa que mando lavar o carro.


Chego no estacionamento hoje e um dos ajudantes, Cícero, está sentado ouvindo áudios no celular. Gil, ligeiro que é, sobe correndo para pegar meu carro.


Chega uma moça bonita, com sotaque carregado nordestino, e pergunta:


"Você é o Gil?"


Cicero, meio atordoado, responde que não, que Gil está lá em cima, pegando um carro.


Ele então pergunta:


"O que você quer com ele?"


A moça diz que precisa falar com Gil.


De repente, ele solta:


"Você é mulher dele?"


A moça ri, meio envergonhada, e diz que não. E eu fico me perguntando se ela fosse esposa do Gil, talvez ela o reconheceria.


Eu viro de costas para esconder a risada do diálogo ali presenciado. Vou em direção ao Gil, que já está com meu carro, e digo:


"Você tem outra esposa?"

Assustado, ele pergunta por quê. Conto o que aconteceu a minutos atrás.


Ele balança a cabeça e diz que Cícero ou é maluco ou tá bêbado.


"Hoje é sexta-feira, dia que Seu Pinga encosta com força na gente, e essa entidade tem sede, viu? Ou ele recebe a Bailarina da rua, por que tá girando mais que o roda a roda da Jequeti!"


Ele ri alto e vai fechando a porta do carro. Ouço a moça perguntando se ele é o Gil.


Ele vira pra mim e diz:


"Dá pra casar se ela me querer..."


* desisti de falar que me chamo Keli, se bem que Keith também me cai bem, depende da hora do dia sou até capaz de atender.


Keli Lambert


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