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Dia Mundial do Crochê




Semana passada, no 12 de setembro, foi o dia mundial do crochê.


Eu sempre me admiro que exista um dia mundial do crochê. Confesso que não sei o motivo desta data ter sido escolhida, mas até o final deste texto eu dou uma pesquisada e conto pra você.


Eu poderia escrever aqui que eu aprendi crochê com meu filho mais velho, que tinha 9 anos na época e resolveu fazer aula de crochê num armarinho na Gávea, no Rio de Janeiro, onde todas as suas colegas eram senhoras bem, mas bem mais velhas do que ele.


Eu poderia também contar que lá na minha infância minha mãe me ensinou a segurar na

agulha, me deu uma linha e que eu teci quilômetros de correntinhas de crochê. E que esse

passatempo não durou mais do que uma semana.


Mas o que eu vou te contar é que encontrar o crochê depois dos 40 anos não estava nem nos mais remotos dos meus planos. Ao contrário. Eu cresci renegando uma série de coisas que eu julgava serem “coisas de mulher”.


Qualquer coisa que tivesse a ver com agulhas, fios, tesouras, temperos, panelas, fogão. Já percebeu onde isso vai dar?


Acontece que meu filho Alexandre, ainda criança, estimulado por uma tia minha que tinha

levado fio e agulha para o réveillon daquele ano, começou a fazer aulas de crochê num

armarinho na Gávea, rodeado de mulheres muitas décadas mais velhas do que ele.


Eu mesma já tinha aprendido a fazer correntinhas com minha mãe também quando criança, mas aquilo não foi pra frente. Dei só uma retomada aqui para poder avançar.


Pois bem. Alexandre voltava para casa trazendo pequenos cachepôs e poucas histórias, já que aquelas senhoras não tinham muito assunto com ele, que, um pouco tímido e reservado, também não devia ter se mostrado muito interessado em fazer amizade.


Um dia, ao buscá-lo na aula no final da manhã, ele veio segurando um presente para mim.

Com as suas mãozinhas, um fio e uma agulha, com sua calma e concentração, provavelmente alheio às fofocas ao redor da mesa, ele fez uma bolsa para mim.


Uma bolsa!


Meu coração explodiu. E junto com ele minhas ideias tolas sobre o que é coisa de mulher.


Lá estava ele, sorriso no rosto de orgulho, talvez reflexo do meu olhar admirado, derrubando

em mim algo que construí com muito empenho ao longo da vida: certezas sobre quem eu sou, do que eu gosto e do lugar que ocupo no meu pequeno universo.


Voltei para casa, abri meu computador e pesquisei “aulas de crochê online”. Eu digo por aí que fiz isso para ajudar meu filho nas aulas dele e para poder dar uma forcinha quando ele não soubesse muito bem como seguir.


Talvez este tenha sido mesmo o motivo, mas quer saber?


Duvido.


Não é fácil admitir aqui que eu já estive impregnada de ideias sobre o que é coisa de quem e quem pode fazer o quê. Mas na vontade de me afirmar no mundo, segmentei minhas

possibilidades, limitei minhas escolhas, cedi aos estereótipos.


Lutei e lutei para me distanciar das gerações de mulheres que vieram antes de mim. Minha intenção foi avançar em conquistas, em direitos e liberdades.


Hoje enxergo a beleza infinita que existe no fazer com as mãos, no tempo que passa mais

devagar e em silêncio. E me sinto conectada com alguma coisa que veio muito antes de mim, e me orgulho quando ouço que sou talentosa como minha avó, ou que sou atenta aos detalhes como foi minha bisavó.


Hoje eu olho para essas mulheres com uma admiração profunda, com um respeito tão sincero pela caminhada de cada uma delas, porque elas foram fortes e enfrentaram obstáculos que eu nem posso imaginar. E tiveram filhas fortes e dessa corrente nasci eu, nasceram minhas irmãs, nasceram minhas primas, nasceram todas as mulheres do

mundo.


Hoje eu não saio de casa sem fio, agulha, um projeto na bolsa que me acompanha em todos os lugares. Se você por acaso encontrar uma mulher no restaurante, na praça, na padaria, no cinema, no zoom, com os olhos baixos e as mãos tecendo, pode me chamar.


Sou eu.


Ah e antes que eu me esqueça. O dia mundial do crochê foi criado em 2007, quando Jimbo,

um artesão americano que fazia agulhas de madeira, decidiu oficializar a data.


Pois é, eu também esperava mais.


Bia Carvalho

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