Dorival





No burburinho matinal da Justiça do Trabalho, uma mulher me pergunta se sou advogada. Respondo que sim já imaginando que queria perguntar algo sobre a audiência que a mesma aguardava.


Não! O assunto era outro e então foi colocado em pauta, Dorival, seu ex-companheiro, com quem tem um filho de 10 anos.


Pois bem, segundo a ela quando da separação, entrou com uma ação de alimentos face o pai do seu filho. Um acordo judicial decidiu a pensão, no entanto Dorival nunca pagou alegando que "a lei dele com o filho quem bota é ele e não juiz”. Além do mais, disse que no dinheiro dele ela não pega nunca!


Já indignada com Dorival, comento: - Um pai não pode deixar de dar alimentos ao filho, ainda mais quando estabelecidos judicialmente. Pede a prisão dele! ”Ela retruca - Ele dá as coisa ao menino, compra as merendas, paga a escola... atrasado mais paga. Compra os livros, dá roupa final de ano, só não paga a pensão porque diz que no dinheiro dele eu não pego.


- E procura o menino? - indago.

- Oxe! É um grude, se eu deixar todo fim de semana vai buscar o menino. Os dois não perdem um jogo do Bahia!


Então completa, tirando todas minhas dúvidas: - O problema de Dorival "é" as vagabundas. Porque não pode ver uma que não aguenta. Você acredita que ele não paga a pensão mas deu um "mega hair", de cabelo bom, pra uma sujeita que deve ter sido caro?


E me pergunto: qual o problema de Dorival? Assim, pondero: - Converse com seu ex-companheiro, afinal, ele não deixa de cumprir as obrigações como pai, vocês precisam se entender...


Ela: - Dorival disse que todas as palavras que tinha pra mim nessa vida já disse, não quer falar comigo...


(Respirei para segurar o riso!)

Por uns minutos consulto Meus Botões sobre Dorival, enquanto a consulente fala sem parar sobre as cervejas que o “infeliz”, palavra dela, pagava para as gatinhas, os presentes que dá e tudo o mais...


Penso, então, nos milhares de pais inadimplentes com as pensões, com a assistência moral, material, com o afeto.


Em minha mente vem a imagem de Dorival indo além daquilo que as leis podem alcançar para não negligenciar nos deveres de pai. Reflito sobre o homem cujo maior defeito nem de fato é dele, porém das vagabundas a quem ele não resiste, e ainda, generosamente, presenteia.


Viajo em como deve ser fantástico Dorival e o menino, juntos, torcendo pelo Esporte Clube Bahia, fortalecendo os vínculos de amor e amizade entre ambos. Lamento Dorival gastando todas as palavras do seu vocabulário com aquela mulher que não para de falar e querer pegar no seu dinheiro .


Vislumbro o(a) Juíz(a) da Vara de Família chegando todos os dias para trabalhar e desejando encontrar pelo menos um Dorival.


Peço, então, perdão a Dorival pelo mal juízo que fiz dele, quando ouço o nome de meu cliente ser apregoado, levanto e entro na sala de audiências cantarolando, mentalmente, a música de Gilberto Gil:


“Dorival é ímpar

Dorival par

Dorival é terra

Dorival é mar

Dorival é pai

Dorival é mãe

Dorival é peão

Balança mas não cai”


(Buda Nagô)


Claudia Lacerda






*clique AQUI para mais textos de Claudia Lacerda.






© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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