“- E você faz o que?





Em 1982, eu me sentia no auge da carreira. Tinha 27 anos. E coordenava uma campanha internacional para exportação de frutas brasileiras. Eram quatro agencias de propaganda, uma empresa de pesquisa e todos pedindo “benção” e “puxando meu saco”(a realidade não era bem essa, mas era como eu enxergava a situação, na época).

Eu ser um cara um tanto desligado, associado à minha imaturidade do momento, me fizeram pagar muitos micos e perder muitas oportunidades, ao longo da vida.

Tudo isso é muito chato e constrangedor quando acabamos magoando ou prejudicando alguém, mesmo que de forma involuntária. Mas, torna-se muito mais dolorido quando as vitimas somos nós. E, principalmente, quando sabemos que não haverá uma segunda chance para nos redimir.

Eu função de meu trabalho, eu viajava demais. E em uma dessas viagens, estava na Alemanha e pegaria um trem noturno para Paris. Uma viagem de aproximadamente 6 horas, que resolvi fazer para poder dormir no trem e aproveitar o dia seguinte, na cidade luz. Embarquei e descobri que teria como companhia um casal. Os dois muito educados, afáveis e discretos.

Em determinado momento, o senhor me convida para o vagão-restaurante para podermos jantar alguma coisa. Sua esposa preferiu ficar e tentar descansar um pouco. Mais tarde, ao lembrar de tudo, ela (e ele também) provavelmente já deveriam estar tentando descansar e eu não parava de falar, falar, falar, falar....

O tempo me mostrou que o convite ao vagão-restaurante foi uma gentileza daquele senhor com sua esposa para que ela, finalmente, tivesse um pouco de paz e silencio. E ele encontrou uma forma extremamente educada de me tirar do local.

Fomos ao vagão restaurante e a única lembrança que tenho é que continuava a contar meus “sucessos profissionais, a “importância de meu trabalho e como eu era “um cara bem sucedido”. Meu companheiro de viagem, apenas ouvia e demonstrava muita atenção e aproveitava os raros momentos que eu permitia, ao respirar ou mastigar algo, para levantar algum questionamento visando me incentivar a continuar contando. E eu sempre continuava.

Hoje, tenho a exata noção que foi uma estratégia para me cansar (muito bem sucedida, aliás) e que, quando isso acontecesse, voltaríamos ao nosso lugar, finalmente, em silencio.

Quando, finalmente, o cansaço veio, ao começar a voltar aos nossos lugares, enfim, de uma forma até protocolar, indago ao meu “novo amigo: “- E vc, o que faz?” e travamos esse curto diálogo (até então, havia sido um monólogo):

- “Eu escrevo.” (responde com um sorriso discreto)

Faço um olhar de surpresa e emendo outra “preciosidade”:

- Que interessante! Já publicou alguma coisa?

Desta vez, com um sorriso, a resposta volta com humildade e segurança:

“- Sim...algumas”

E se despede com um aceno, já se acomodando em seu lugar ao lado de sua companheira.

Retribuo o sorriso e ainda ouso, finalmente, perguntar seus nomes.

Ele, já com um olhar cansado, me responde.

- “Meu nome é Gabriel*. Prazer”

E aponta, com o olhar, a companheira que já dormia profundamente e diz bem baixinho:

- “Mercedes”

E foi assim que nos despedimos. Quando o trem parou em Paris, bem cedo, eles ainda dormiam e iriam seguir viagem. E não quis acordá-los.

Só fui me dar conta que havia desperdiçado a oportunidade de minha vida, quando, no dia seguinte, assisti a matéria no jornal local sobre a presença na Europa do grande vencedor premio Nobel de Literatura, daquele ano.

Fico torcendo para que ele não tenha contado a ninguém, sobre quando, um brasileiro tolo, tagarela e pretensioso que o conheceu e não foi capaz de reconhece-lo.

Mas, se o fez, não foi sem razão e eu mereci.

Meu consolo é que foi com ele que aprendi que ouvir será sempre mais importante.

De qualquer forma, perdão e obrigado, Gabriel.


Roberto Halfin






*Gabriel José García Márquez - foi um escritor, jornalista, editor, ativista e político colombiano. Considerado um dos autores mais importantes do século XX, foi um dos escritores mais admirados e traduzidos no mundo, com mais de 40 milhões de livros vendidos em 36 idiomas.

Foi laureado com o Prémio Internacional Neustadt de Literatura em 1972, e o Nobel de Literatura de 1982 pelo conjunto de sua obra que, entre outros livros, inclui o aclamado Cem Anos de Solidão. Foi o maior representante do que ficou conhecido como realismo mágico na literatura latino-americana. Viajou muito pela Europa e viveu até à morte no México. Era pai do cineasta Rodrigo García. (Wikipédia)


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© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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