Estou velha e daí??




Na farmácia, uma mulher de seus 50 anos, com uns quatro dedos de cabelos brancos - aliás como boa parte das grisalhas na pandemia - aborda a vendedora lá do outro lado do balcão:


"- Por favor onde estão os absorventes?“ A vendedora, com uma perceptível pitada irônica, responde perguntando:


”- Geriátricos, senhora?“


A cliente, atônita, vira- se para mim e pergunta:


"- Ela me chamou de velha?"


Igualmente espantada, afinal a mulher era, digamos assim, do meu tipo. Arregalo os olhos sem conseguir encontrar palavras para qualificar o que reputei de, no mínimo, uma deselegância. Afinal qual o pecado de entrar na fase dos "enta"?

Malograda a descompostura e o preconceito da atendente, é forçoso reconhecer que vivemos em mundo em que a busca pela eterna juventude faz com que se torne ainda mais difícil enfrentar os efeitos do passar do tempo e mais corriqueiro se esquecer que é um verdadeiro privilégio permanecer mais no planeta terra.


É como se o envelhecimento fosse uma espécie atestado de incapacidade para a vida, de inaptidão ao mercado produtivo, um menosprezo a determinados conhecimentos e experiências adquiridos com a longevidade.

Quando se trata das mulheres a sociedade é ainda mais cruel com o avanço da idade e o desespero feminino se manifesta de maneira latente, já que, desde muito cedo, somos orientadas que ser e estar bonita, é uma das nossas obrigações na vida.


Existe, inclusive, todo um movimento financeiro que se sustenta na cultura de que as mulheres são valorizadas apenas por seus requisitos físicos, enchendo os bolsos da indústria cosmética e de estética, afinal se prega que as mulheres quando envelhecem se tornam feias.

O tempo, de fato, é implacável com suas marcas e na tentativa de driblá-lo nos vemos às voltas com as linhas de expressão, os cabelos brancos, os quilos a mais, com o espelho e com a própria autoestima.


Não se trata de fazer apologia ao descuido, ao desleixo, ao não cuidar do bem estar e da saúde, inclusive para se sentir jovial, todavia do fato de compreender a maturidade do corpo e da alma como parte fundamental do processo de existência, a libertação de padrões estéticos, o sagrado direito de deixar o tempo passar sossegado.


♫♫“De modo que meu espírito /Ganhe um brilho definido/ Tempo tempo tempo tempo / E eu espalhe benefícios♫” ( Caetano Veloso)

Favor nos deixar em paz com a beleza de cada etapa de nossa trajetória, com nossas rugas e nossos absorventes!


Claudia Lacerda






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© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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