Fazer a corte.... (texto de maio/2014)




Afinal o que a mulher prefere?


A arte de seduzir ou a consumação da sedução propriamente dita? Há controvérsias.


Fato que ouço de muitas mulheres que "o príncipe encantado" não existe mais. Talvez nunca tenha existido e muito provavelmente, as mulheres nunca o tenham querido. Afinal, a delicadeza do príncipe estavam mais centradas no ato de seduzir do que ato em si. O ato em si pressupõe uma certa virilidade. Já a sedução se desenha como um ensejo de delicadeza de comportamento, que só será bem-vinda se estiver implícito que haverá o oposto deste comportamento, uma vez consumada.

À época de suas origens, a palavra onde se abriga mais fortemente o termo sedução é a corte. É na corte que a palavra terá o poder de representar um signo sem conteúdo (a definição da mentira nessa época, não era tida como uma ofensa mas apenas como uma retórica de discurso, simplesmente. Em suma, não era espantoso mentir. Será que hoje é?).

Ou seja, na época não bastava apenas expressar-se. Havia a necessidade de seduzir. A nobreza francesa foi retratada em diversas literaturas e, até hoje, se confunde o que é relato e o que é ficção, em função do comportamento dúbio dos próprios nobres.


Autores como Mirabeau, Balzac, Laclos e Louvet retratam com maestria esse período.

As Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos, se tornou um retrato evidente da sedução entre os nobres (tanto entre Madame de Merteuil e o Visconde de Valmont entre estes dois e seus alvos). A linguagem utilizada pelo autor no livro é crucial para que se entenda o espírito da sedução: não há só o objetivo sexual, há o meio. O processo de táticas, estratégias e desafios da conquista.


O interessante é o jogo, não o objetivo, que poderia ser alcançado facilmente: desonrar outra mulher. A proposta do jogo também é esdrúxula: uma vingança pessoal a um fato pequeno. As conversas entre os nobres, onde se utilizavam artifícios da escrita na fala como as metáforas e as inversões, assim como o jogo, eram seu próprio objetivo. É a fala que moverá os reis franceses dentro das conspirações da corte, é a fala que eleva ou banaliza a realeza.


Uma cena do filme As Ligações Perigosas de Stephen Frears mostra a fala como instrumento de sedução de maneira magistral: os nobres sentados em círculo, declamando poesias. As poesias têm uma métrica precisa e flertam, ameaçam-se, envergonham-se, e comunicam-se através das outras expressões do corpo, ou da entonação, das pausas, utilizando as palavras como aparência. Enquanto se odeiam e se amam, declamam poemas sobre a alvorada ou sobre flores e saudades.


Foi através de uma relação entre filósofos e autores libertinos que a idéia do livre desejo se espalhou. Os filósofos sustentam as idéias do erotismo livre, enquanto os autores libertinos “aprovam e divulgam as concepções religiosas, morais, políticas e sociais da Ilustração”, segundo Sergio Paulo Rouanet. A sedução como humanização e libertação do homem ligado ao trabalho.


Tanta é a generalização que há Madame de Merteuil na literatura para prová-lo: a sedução feminina, o feminino tomando o arquétipo do masculino, de dono da produção de planos de abordagem, de estratégias amorosas e de engano. É a figura feminina como liberta na sedução, liberta através da sua linguagem povoada de sortilégios, liberdade através do iluminismo que propõe um racionalismo, um culto à razão. O problema dos racionalismos é que eles conhecem apenas o presente; não há futuro, não há passado: há apenas a lógica.

Na mitologia grega, por vinte anos, Penélope esperou a volta de seu marido da Guerra de Troia. A longa viagem de retorno de Ulisses é o tema da Odisseia, de Homero.

Os anos passavam e não havia notícia de Ulisses, nem se estaria vivo ou morto. Assim, o pai de Penélope sugeriu que sua filha se casasse novamente. Penélope, fiel ao seu marido, recusou, dizendo que esperaria a sua volta. Porém, diante da insistência do pai e para não desagradá-lo, ela resolveu aceitar "a corte" dos pretendentes à sua mão, estabelecendo a condição de que o novo casamento somente aconteceria depois que terminasse de tecer um sudário para Laerte, pai de Ulisses. Com essa estratégia, ela pretendia adiar o evento o máximo possível.


Durante o dia, aos olhos de todos, Penélope tecia, e à noite, secretamente, ela desmanchava todo o trabalho. E foi assim até uma de suas servas descobrir o ardil e contar toda a verdade. Ela então propôs outra condição ao seu pai. Conhecendo a dureza do arco de Ulisses, ela afirmou que se casaria com o homem que o conseguisse entortar.


Entre todos os pretendentes, apenas um camponês humilde conseguiu realizar a proeza. Imediatamente este camponês revelou ser Ulisses, disfarçado após seu retorno.


Para alguns autores, a sedução é um conjunto de signos sem conteúdo, como a maquiagem de uma mulher. "Não se pode pensar sedução como produção, como armazenamento de prazeres, como se utilizar de alguém para o prazer do sexo ou dos rituais com finalidade. Nunca se pode pensar a sedução como desejo, sexo, sono, onde se há uma economia móvel, onde se há necessidade de ter para armazenar e para manter um capital sexual em movimento. A sedução não pode ser confundida com a sexualidade e a produção é um círculo distante da sedução; para isso existe o desejo."


As mulheres concordam?


Roberto Halfin







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