Histeria e compaixão




Hoje o dia amanheceu bastante estranho por aqui*. Após o pronunciamento do presidente Donald Trump na noite passada, cancelando os jogos da NBA e os vôos provenientes da Europa, uma nuvem negra parece ter se instalado.


Uma agitação pouco usual dominou a manhã. Logo cedinho, cruzei com um dos vizinhos com os braços atolados de sacos de rolos de papel higiênicos e outros itens que, em outros tempos, não precisariam ser comprados, às pressas, às sete da manhã. No chat das amigas, o assunto era o planejamento de excursões grupais a supermercados mais distantes, com a esperança de um aumento nas possibilidades de encontrar produtos que já faltam há bastante tempos nos estabelecimentos do nosso bairro.


Após deixar as crianças na escola, decidi dar um pulinho no supermercado da esquina só como uma forma extra de precaução. Já faz uns dias que vinha abastecendo de forma mais robusta a despensa da casa (ou melhor, os poucos armários que tenho na minha cozinha) como uma forma de acalmar minha inquietude interna frente aos acontecimentos e tentar garantir uma certa sensação de segurança. Mas quem sabe, pensei eu, não valeria comprar mais um pacotinho de macarrão, mais uma embalagem do biscoitinho que as crianças gostam, mais um litrinho de leite caso eu decida fazer um bolo ou cozinhar panquecas para o jantar...


E assim fui eu, empunhando meu carrinho de compras, já bem desgastado e capenga, em direção ao mercado que costumo freqüentar quase todos os dias.

Chegando lá, observei um movimento maior do que o usual para o horário (oito e quinze da manhã). Por entre os corredores tumultuados, fui reconhecendo uma série de rostos familiares, rodando apressados com seus carrinhos, um tanto confusos e sem saber ao certo a procura de quê. Na fila da açougue, uma mãe da mesma escola me ofereceu seu lugar na fila.


“Não sei bem o que comprar!”, ela confessou, um tanto envergonhada. “Pode passar na minha frente”.


Com alívio, dividi com ela a mesma inquietação. O que comprar? Estamos nos preparando para quê? Juntas, rimos nervosas e nos separamos após um olhar cúmplice e confortador de quem está no mesmo barco igualmente sem os remos e sem direção.


No corredor mais adiante, encontrei uma outra mãe. Uma daquelas mães que conheço apenas de falar um oizinho, conversar amenidades e desejar “Happy Friday!”(“Feliz sexta-feira!”), um jeito um tanto engraçado que alguns nova-iorquinos usam para cumprimentar alguém que se encontra de passagem (desejar Feliz Sexta-Feira não é esquisito?). Para minha surpresa, o encontro durou muito além dos poucos segundos costumeiros. Ela me olhou, me cumprimentou e disparou a falar. Sua fala era rápida e repetitiva, girando em torno do já conhecido dilema: o que devia comprar. Ela falava ininterruptamente, como se eu não estivesse ali. Confesso que tive dificuldade em conseguir uma brecha para, quem sabe, opinar e recomendar uma pasta pronta incrível, super fácil de cozinhar e que as crianças adoram! Procurei por seu carrinho ali por perto, para ter uma dica ou um gancho para continuar a conversa – “olha, você comprou gengibre, boa lembrança!” - mas me dei conta que nem carrinho ela estava empurrando. Um tanto atordoada com o inusitado da situação – quem vai ao supermercado para conversar, em pé, no meio do corredor lotado? – me dei conta de ela estava ali, no supermercado, sem carrinho, sem cestinha, sem nada!


Estava ali somente para falar! Falar com alguém, se atualizar, driblar a angústia, sei lá. Ou talvez para não se sentir tão só e dividir um pouco o mundão de preocupações que, ainda que invisíveis, certamente eram maiores do que qualquer carrinho de supermercado teria a capacidade de carregar.


A caixa que me ajudou a processar a compra, mostrou um despeito pouco usual para o estabelecimento que, geralmente, oferece um atendimento polido e gentil. Ela mal me olhava e conversava de uma jeito quase histérico, falando alto e gesticulando, com a colega do caixa ao lado. Não respondia minhas perguntas e jogava os itens na esteira quase como uma forma de protesto por estar ali.


Saí do supermercado com um certo alívio de deixar toda aquela confusão para trás. Olhando meu carrinho abarrotado e pensando nos itens que tinha conseguido comprar, confesso que senti até um certo orgulho de mim mesma, da minha decisão de ter ido e feito mais uma última comprinha “just in case”.


Ao chegar na esquina para atravessar a avenida, porém, olhei para o prédio da escola onde meus filhos estavam tendo aula e, imediatamente, senti um amargor. E neste instante me dei conta do grande absurdo de toda aquela situação.


Como uma cortina que se abriu, as cenas vividas instantes antes dentro do supermercado se clarearam diante de mim. Me senti envergonhada, pequena, mesquinha ali, no meio da rua, lutando para carregar o máximo de itens que meu carrinho e duas sacolas conseguiam suportar. Lá estava eu me refastelando sem limites, comprando todos os luxos que minha família pudesse desejar (e ainda me sentindo orgulhosa de mim mesma!), enquanto professores, funcionários e trabalhadores estavam ali na escola, cercados de quase 500 crianças de mais de 30 nacionalidades diferentes, cujos pais viajam para o exterior com uma freqüência assustadora por demandas de trabalho, se expondo e expondo suas famílias para que eu pudesse estar ali, vagando errante por corredores já vazios, a procura de não sei bem o quê! Enquanto os caixas do supermercado estavam ali, trabalhando e, literalmente, testemunhando a minha histeria e a de todos os outros e, talvez, pensando, no quê lhes sobraria para comprar.


Será que elas não gostariam de estar ali na minha situação, com a cabeça focada na saúde e bem-estar próprios (e não no trabalho) e com o tempo disponível para comprar uns litrinhos extras de leite e os biscoitinhos prediletos de suas famílias?

Já faz dias que isso aconteceu. Mas essa é a pergunta que ainda não parou de ecoar dentro de mim...

*****

Como todos, me sinto confusa e perdida. Mas no dia de hoje, ao olhar para a escola dos meus filhos, para o caixa do supermercado, para outras mães que encontrei – apenas pequenos mundinhos dentro da vastidão de outras realidades - decidi que era hora de tirar um minutos para me recolher. Para colocar a cabeça no lugar e tentar, no meio de todo esse mar de informação e confusão, me encontrar de novo comigo mesma. É tão fácil se perder de si mesmo em momentos como esse não é?


Fechei os olhos em oração e comecei a pedir: pedi ao universo pelas professoras da escola, pelos caixas de supermercado, pelos guardas de trânsito, pelo motoristas dos trens do metrô, pelos enfermeiros do hospital, os lixeiros e todos aqueles que não puderam parar (nem mesmo quando o mundo parou!). Pedi para que, após seu turno de trabalho, pudessem ter a chance de encontrar algo para suas família em meio as prateleiras dos supermercados que, de manhã, já estavam tão vazias. Para que eles, como eu, pudessem ter a ilusão, ainda que falsa, de que tiveram tempo de fazer algo para proteger suas famílias, para garantir um certo conforto caso se instalasse o caos.


Além de pedir, tenho que dizer que também agradeci. Agradeci por ter a sorte de viver minha ínfima e luxuosa ilusão, de forma protegida e em segurança. Um direito que era para ser de todos mas que, ultimamente, tem parecido cada vez mais um privilégio de poucos, ainda mais em tempos de crise.

Peço desculpas por escrever mais um texto sobre o mesmo tema-que-ninguém- aguenta-mais-mas-não-consegue-parar-de-ler. Mas ele foi maior que eu. Porque dentro do novo papel que tenho me atribuído – de cuidar das pessoas e facilitar a cura interior – foi importante para mim me manifestar. Ainda que dessa forma subjetiva, baseada em uma amostra ínfima de um universo bastante viesado (que me desculpem os cientistas por esse deslize, por ousar a falar de sentimentos e divagações no meio de tanta urgência e pressão). E porque precisava dizer, de alguma forma, mais um muito obrigada.


Me custa admitir, mas os ditos inimigos são aqueles que mais ensinam! São aqueles que nos confrontam, nos tiram da zona de conforto, nos fazem repensar, mudar. Portanto, Sr. Corona, segue aqui meu agradecimento por me fazer lembrar de ser grata pelo que tenho e por me ensinar a olhar para o dia de hoje com um pouco mais de compaixão e menos auto-centração.

*****


Nesses tempos incertos, fica aqui minha solidariedade a todos nós e o desejo que as lições que esse vírus veio nos ensinar sejam logo aprendidas e que ele, rapidamente, perca sua função e sua força e vire apenas uma lembrança vaga dentro de nosso coração.


Isabel Coutinho mora em Nova Iorque, é mãe de dois e praticante de ThetaHealing®. Para mais informaçõeswww.isabelcoutinho.com


Isabel Coutinho






*clique AQUI para mais textos da Isabel Coutinho.

© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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