Maria Quitéria


Ligo para uma prefeitura no interior da Bahia, local bem distante da capital, para tentar resolver uma pendência.


Em realidade, termino descobrindo que o problema se tratava, mais uma vez, de um grande feito que, malgrados as exceções, parece ser o único a que se deliberam realizar os políticos municipais: trocar o nome da rua, praça e de outros locais públicos para homenagear a família.


No caso, foi trocado o nome de *Maria Quitéria, heroína da independência da Bahia, pelo nome de Não Sei Quenzinho.


Então, curiosa sobre quem tomou o lugar da nossa guerreira, pergunto, ao jovem atendente:

- Quem seria a pessoa cujo nome ostentava a rua?


- Conheci não ... - foi a resposta.


Insisto:

- Mas ao menos sabe se Fulano de tal foi político, ou qual a importância dele para a história da cidade?


Nova resposta:

- Esse tal de... sei quem foi não...


De repente. alguém arrebata o telefone da mão do rapaz e diz aos berros:


- Foi um arruaceiro e o maior patife que esta cidade já teve!


Do outro lado da linha, a chefe do setor, que pela voz parecia ser bem senhora.


Respiro para controlar uma súbita vontade de rir o que talvez se devesse ao tempo em que não ouvia as palavras arruaceiro e patife.


Indago à colérica interlocutora:

- Senhora, me desculpe a insistência, no entanto qual o motivo que uma pessoa com tal qualificação vira nome de rua?


Resposta:

- É tio do ordinário, do descompreendido do prefeito! (ambos adjetivos que ouvia quando ainda adolescente vivia no interior da Bahia).


Comento:

- Creio que rua deveria continuar com o nome de Maria Quitéria, mulher que tão bem nos representa e nos orgulha.


A voz incansável esbraveja do outro lado:

- Ora, minha senhora! Deixa Maria Quitéria lá pelas bandas de Salvador. Aqui a rua tinha que ter era o nome de Mainha, a mulher que criou sozinha, lavando roupa de ganho, os três filhos que esse cretino, raparigueiro, fez nela e nem registrou!


Respiro com mais intensidade perante o “cretino, raparigueiro" que ninguém menos era que o Painho da funcionária da Prefeitura.


Em meio ao caso de família, sigo comentando com Meus Botões que enquanto os eleitos pelo povo estão, Bahia a fora, preocupados em render graças a seus parentes, trocando nomes dos logradouros públicos pelos deles, sem qualquer compromisso com a tradição do lugar... os alunos de escolas públicas municipais sequer conhecem a riqueza da própria cultura ou mesmo sabem quais as atribuições de um prefeito, de um vereador.


Alegro-me ao pensar na língua portuguesa, soberba em semântica, se dando ao desfrute de tantos sinônimos que entram e saem de moda ao gosto do tempo.


Lembro das Mainhas, Voinhas, Titias e tantas outras heroínas anônimas, feitas de luta e que, à sua maneira, vão fazendo a história deste país!


Por fim, aposto que se Maria Quitéria, mulher retada, boa de combate, à frente do seu próprio tempo, conhecesse os políticos da cidadezinha em questão, certamente diria:

- Rebanho de patifes!


E diante de Mainha:

- Essa é das minhas”!!!!!



Claudia Lacerda






*clique AQUI para mais textos da Claudia Lacerda.


* Maria Quitéria (1792-1853) foi uma militar brasileira, heroína na luta pela independência. Maria Quitéria teve atuação destacada em lutas importantes. Foi condecorada com a Ordem Imperial do Cruzeiro do Sul.

Há um distrito e algumas ruas com o nome de Maria Quitéria pelo Brasil. Como é o caso do distrito "Maria Quitéria", Feira de Santana, na Bahia, da "Rua Maria Quitéria", Vida Nova III, em Campo Grande e da "Rua Maria Quitéria", Ipanema, no Rio de Janeiro.



© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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