Meu Aniversário




Ao invés de assoprar velas, eu queria soltar balões. E não só 46 (sim, faço hoje 46), queria soltar milhares deles! Já pensou? Todos os dias, alguém faz aniversário... se soltássemos balões, nossa comemoração iria contagiar todos que avistassem nossos balões.


Assoprar velas é meio estranho pra mim... Acho que o verbo é que me intriga...APAGAR...

Por que apagar a idade? Sei lá... eu quero acender! Soltar balões me parece mais comemorativo do que apagar velas.


Pesquisei sobre esse ritual mas não fui convencida. Mas, como muitos rituais, estão incorporados e não paramos para pensar... apagamos as velas ao fazer um pedido...


Meu olhar sobre muitas coisas nunca foi muito convencional mesmo... acho que seria mais legal soltar balões (sei que não é ecologicamente correto tá? - por isso que não solto) e AGRADECER... não pedir.


Sempre que pude, enchi de balões os aniversários dos meus filhos! Eu era a que mais curtia! Já fiquei com meus dedos em carne viva de tanto amarrar balões... mas feliz!


Hoje, completando 46, orgulhosa da safra de 74, eu AGRADEÇO! Agradeço por tê-los vivido... apesar que esse último ano foi meio que "sobrevivido". Um ano MUITO estranho, sem bula e sem precedente. Ano do ficar isolado, escondido, com medo... Ano de dúvidas, incertezas... um ano sem plano B... sem opção com a sensação de ser infindável e sem saída.


Mas foi também um ano de olhar para dentro, de aprender a se bastar. Sabe aquela história de ver passar sua vida como um filme? Então, vi a minha em repetidas sessões da tarde. Assisti, analisei, rebobinei a fita em algumas partes... tomei decisões sobre meu futuro, sobre mim... É aquela pergunta que, até então, era hipotética... Se o mundo acabar hoje, você viveu do jeito que queria? Pois é... para se pensar... ainda dá tempo! O mundo tá aí...


Hoje, quando abri o Facebook, me deparei com o post de um primo que achei perfeito... um poema de Ricardo Godim que copiei de seu próprio site: www.ricardogodim.com.br


Tempo que foge! "Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não vou mais a workshops onde se ensina como converter milhões usando uma fórmula de poucos pontos. Não quero que me convidem para eventos de um fim-de-semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos parlamentares e regimentos internos. Não gosto de assembléias ordinárias em que as organizações procuram se proteger e perpetuar através de infindáveis detalhes organizacionais.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de “confrontação”, onde “tiramos fatos à limpo”. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário do coral.

Já não tenho tempo para debater vírgulas, detalhes gramaticais sutis, ou sobre as diferentes traduções da Bíblia. Não quero ficar explicando porque gosto da Nova Versão Internacional das Escrituras, só porque há um grupo que a considera herética. Minha resposta será curta e delicada: – Gosto, e ponto final! Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: “As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos.

Já não tenho tempo para ficar dando explicação aos medianos se estou ou não perdendo a fé, porque admiro a poesia do Chico Buarque e do Vinicius de Moraes; a voz da Maria Bethânia; os livros de Machado de Assis, Thomas Mann, Ernest Hemingway e José Lins do Rego.

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita para a “última hora”; não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja andar humildemente com Deus. Caminhar perto dessas pessoas nunca será perda de tempo."

Soli Deo Gloria.


Só discordo do tempo de vida! Quero passar dos 100!!! rsrsrsr


É isso... 46 primaveras... literalmente!


46 anos vividos sem ANOTAR NADA, esquecendo MUITA coisa, confundindo algumas...


Queria soltar meus balões coloridos para muita gente comemorar comigo enquanto eu agradeço, com o coração cheio de amor, por tudo que vivi, que aprendi e pela oportunidade de continuar!


Agradeço também por ter o EU NÃO ANOTO NADA para me acompanhar nessa estrada.


tati






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© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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