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Natal nas montanhas



 

O endereço marcado no convite ficava numa rua curvilínea no alto de uma colina. Uma charmosa cabine de madeira, com seu telhado verde e jardim impecável, era o sinônimo daquilo que eu imagino ao pensar em uma casinha aconchegante no meio do nada.

 

A festa de Natal sempre foi uma tradição desse casal de senhores – ela de origem européia e ele, americano.

 

Uma profusão de aromas, luzes, enfeites, quadros e bibelots de natal inundaram nossos sentidos assim que entramos na charmosa cabine. O vermelho era a cor predominante, fazendo parte da roupa da anfitriã e seu marido – de casaco e gorro de pom-pom branco como um elf ajudante do Noel.

 

A árvore de Natal, um pinheiro natural, cultivado nos arredores da residência – uma propriedade de vários acres, cercado de trilhas e mata virgem – foi colhido e carregado pelo próprio anfitrião, um senhor alto de 84 anos e aparência formal. Só aparência. Ele se revelou extremamente simpático e falante, assim que o gelo dos primeiros minutos da nossa chegada foi quebrado.

 

Ele gosta de ler e sabe tudo sobre “fauna e flora” (SIC); sabe também todas as dicas para manter alimentos frescos por mais tempo, assim não precisa ir com frequência ao supermercado. “Detesto fazer compras”. Disse a ele que deveria escrever um blog com todas as dicas que ele colecionou ao longo dos anos. Ele negou e disse que ainda não era a hora de sentar para escrever. Pretende deixar as atividades mais calmas para quando estiver fisicamente debilitado. “Talvez por volta dos 94 anos”.

 

Ela, a grande anfitriã da noite, fez questão de cozinhar tudo sozinha e sem ajuda. Não ficou feliz com o resultado. “A comida ficou seca!”. Quando ousei dizer a ela que a comida estava ótima e que ela só estava sendo exigente demais – como grande parte dos bons cozinheiros que conheço – ela ficou brava: “eu sei exatamente julgar uma comida bem-feita! E definitivamente it doesn’t look like this”.

 

A tradição é receber os convidados - devidamente paramentados com acessórios natalinos (que ela faz questão de prover, caso apareçam convidados desavisados e à paisana como eu)  - com muito vinho e uma mesa farta de belisquetes até o momento onde todos são intimados a decorar a árvore em preparação para o grande momento da noite: vê-la toda pronta e iluminada!  Como introdução, um discurso bem-humorado de Bill – o marido elfo - que explica como cuidou do pinheiro durante anos para que ele se tornasse a atriz principal da celebração. Em seguida, contagem regressiva como na virada do ano e blam! a arvore se acende sobre os aplausos emocionados dos convidados e os olhos maravilhados da anfitriã que, ansiosa, esperava com sua inseparável câmera para registrar o grande momento.

 

Conheci Rita na escola de vinhos que acontece todas as terças-feiras num pequeno wine bar da cidade minúscula onde moro, há cerca de 200 km da cidade de Nova Iorque. De origem finlandesa, ela é a fotógrafa oficial de todos os eventos que participa e faz questão de registrar com destreza e bom humor todos os convidados da festa. Quando se aproxima com sua câmera, todos têm que parar a conversa e pousar de forma comportada para a foto, que ela dirige com orientações firmes e precisas. “Ainda não está bom; você vem mais para cá e você para lá”. No dia seguinte, religiosamente pela manhã, publica todas as fotos no seu perfil do Facebook, a principal mídia social usada pelos habitantes da região.

 

Ser convidada para uma festa dessas depois de três anos morando aqui sem praticamente nenhuma atividade social, não é lá das coisas mais banais e tocou profundamente meu coração. Me fez sentir parte de uma comunidade difícil de ser penetrada. Aqui, diferentemente da cidade de Nova Iorque, as pessoas não estão acostumadas com “gente de fora” e a simpatia e interesse das pessoas em saberem quem era aquele casal jovem de sotaque tupiniquim foi uma agradável e confortante surpresa.

 

A bagunça de convidados no espaço pequeno e quente da sala de estar, a confusão sobre a pia da cozinha apinhada de travessas e copos usados, o ir e vir de pessoas trançando de um lado para outro a procura de uma bebida ou recolhendo os pratos está longe de ser uma recepção como estamos acostumados no Brasil onde tudo tem que ser impecável e os convidados participam o mínimo possível dos preparativos. Mas mostra um senso de comunidade interessante, onde não se espera que o anfitrião dê conta de tudo. Pelo contrário, ele pode e deve dividir com os convidados um pouco do ônus do receber.

 

Faz muitos anos que meu Natal não se parece mais com aqueles desfrutados na casa de mais pais, sogros e familiares. Desde que moro fora, grande parte das festas são comemoradas sem a família. Se isso no início me incomodava, hoje já não mais. Abrir-se para uma outra cultura e uma outra forma de celebrar são coisas que fazem parte de se adaptar a um novo país. Ser surpreendido com convites como esse, também.

 

Agradeço profundamente à Rita e Bill por terem aberto sua casa para nos receber em uma cerimônia tão íntima e diferente. Agradeço também à família da montanha – recentemente desfalcada por motivos de mudança – que nos últimos tempos tem sido nosso porto seguro para celebrar as festas. E agradeço profundamente à essa oportunidade de escrever e dividir sentimentos e experiências que, apesar de corriqueiras, me ajudam a encontrar sentido nos momentos que a vida parece tão desencontrada.

 

Foi muito bom encontrar um Natal na casa de Bill e Rita. Ainda que diferente, bagunçado e cheio de pessoas desconhecidas, ele estava lá para me mostrar que é sempre possível encontrar um jeito novo de sorrir e celebrar, mesmo quando o coração grita de saudade pelo velho jeito conhecido de amar.


Isabel Coutinho

 

 

 

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