O dia que voei no Concorde



Não lembro a data exata. Mas, o ano sim. Era 1976. Estava na faculdade (PUC-SP), cursando Economia. Segundo ano. Meu pai morava no Rio. Um dia, volto da faculdade e chego para almoçar em casa. Tinha um recado para eu ligar para meu pai. Liguei e falei com a Janine (sua secretaria que era brava com todo mundo, mas comigo sempre foi legal). Eu deveria ir ao Rio naquele mesmo dia (eu estudava de manhã) e teria que fazer uma viagem, onde eu estaria de volta apenas na “outra” segunda feira. Como assim? Minhas relações com meu pai eram bem conturbadas essa época. Ele estava super ocupado coordenando os vôos inaugurais do Concorde ao Brasil e quase não nos falávamos. Esses voos ainda não eram da Air France. A bandeira era a Aerospatiale (o lado francês do consórcio com os britânicos) e tinha o objetivo de acabar de convencer o governo brasileiro a aceitar e aprovar a rota Rio-Dacar-Paris.

Agora aqui, nessa história, cabe um parênteses. A vinda do Concorde ao Brasil foi fruto de uma negociação bem complexa e, eminentemente, política . Na época, nenhum país estava aceitando o avião, em função do elevado nível de ruído que o supersônico gerava, entre outros problemas. Mas, também não admitiam isso abertamente para não prejudicarem as relações comerciais e politicas com França e Inglaterra.

O Brasil vivia um momento político bem delicado com a transição entre os presidentes Médici e Geisel. Essa transição foi marcante porque havia um misto de final do clima de euforia do “milagre brasileiro” com muita conturbação social, censura e pressão internacional. E, até mesmo, nos meios militares, que dirigia o país, os dois presidentes pertenciam a grupos diferentes dentro do Exército. Especificamente, essa mudança representava a passagem de um grupo mais radical, que defendia o Exército no poder por muitos anos para um grupo que começava acenar com a redemocratização. Essa ainda iria demorar muito a ocorrer, mas o clima conflitante era bem evidente e tenso.

Pois, foi exatamente essa brecha que o “velho Halfin” aproveitou. De um lado, negociou com os militares que o Brasil seria o primeiro país do mundo a ter um voo regular do Concorde. Esse discurso, aos olhos dos assessores políticos do governo, caía como uma luva, pois representava a imagem de pioneirismo do país e daria um alivio nos noticiários internacionais sobre o Brasil.

Por outro lado, ele acenava aos franceses que, finalmente, o supersônico teria um país que iria aceitar o Concorde para que pudessem estabelecer uma linha regular e buscar o retorno comercial do projeto (o que nunca ocorreu, de fato).

Ou seja, a França e Inglaterra procuravam desesperadamente um país que aceitasse o avião e o Brasil acreditava que aceitá-lo seria resultado de um prestígio muito especial e diferenciado.

Foram dias de muita tensão. Porque, meu pai morria de medo que toda essa estratégia de “discursos trocados não desse certo e que os dois lados conversassem a ponto de desmontarem o que estava por trás dessas promessas. E meu velho tinha assumido a direção geral da companhia, em 1974, e esse era seu primeiro grande projeto na nova função. Esses dias tensos, foram revelados por meu pai nos últimos anos de vida. Eu ouvi como se fosse um filme de suspense e como se eu não soubesse do final feliz. Fecha parênteses.

Voltando, achei estranho meu pai me chamar ao Rio, durante a semana. Ele, sempre tão rígido, me falar para eu faltar nas minhas aulas? Não fazia muito sentido. Não combinava com ele, de verdade. Mas, fui. Afinal, minha curiosidade era maior. E pai é pai.

Cheguei ao Rio e fui recebido pelo Perol (nasceu aí uma grande amizade). Ele me buscou no aeroporto, me levou para jantar e me disse que depois me deixaria no apartamento de meu pai e para que eu dormisse cedo porque no dia seguinte, bem cedo também, o velho Halfin iria me acordar para me levar ao Galeão. Só isso. E foi o que aconteceu. As cinco e meia da manha, o Sr Halfin me acordou e disse bem objetivo: “- Vamos logo! Hoje, especialmente, não podemos atrasar!”

Percebi que íamos ao aeroporto. Até ai, nada demais. Era a rotina dele. Mas, o que me chamou atenção no carro foi que ele estava de posse do meu passaporte (que eu tinha dado como perdido, há alguns meses) e um tíquete de voo (naquela época, eram impressos).

Quando chegamos, fomos passando por vários estágios de segurança do aeroporto. Só que tudo direto. Mal olhavam os documentos ou para nossas caras. E, atrás de nós, uma legião de policiais, jornalistas e gente que eu só tinha visto na TV.

Naquele momento, acontece uma situação bem aflitiva para um jovem estudante da PUC, com um discurso “de vanguarda”. Eu vejo claramente em minha frente e pronto para embarcar, o então recente ex-presidente Emilio Médici.

Descobri, exatamente nesse momento, a razão da pressa de meu pai. E, finalmente, caiu a ficha que eu estava indo para Paris de Concorde. Eu seria e fui um dos privilegiados a ter a oportunidade de voar de supersônico!

E quem foi sentado ao meu lado? O chefe da segurança do ex presidente. Em verdade, nunca viajei tão calado. Mudo. Assustado.

Mas, feliz de ter podido voar em um voo histórico! Seis horas depois, já estava em Paris.

E consegui passear pelas ruas da cidade, sem me sentir perseguido


Roberto Halfin






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© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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