O SAPATO DO MALANDRO






Numa tarde comum, envolta em meus afazeres, vejo ao meu lado uma porta de carro se abrindo. Um pé, com um sapato preto, lança-se para fora do carro.


Rapidamente, tento entender de quem é aquele pé. Intrigada, questiono o motivo daquela cena ter aparecido dentro da minha casa. Faço força para lembrar os detalhes da pequena cena. Poucos detalhes, mas um deles seria crucial na minha caçada ao malandro.


Revejo, mentalmente,  a abertura da porta do carro. Não reconheço a cor. Revejo o sapato. Conheço esse sapato, digo para mim mesma. É o sapato do meu namorado. Humm...que coisa estranha! 17h30 e aquele pé aparece assim, sem motivo? No meio da minha sala? 


Continuo minha caçada pessoal. Não é todo dia que se ganha um presente assim. Revejo o piso onde o pé pisou. É asfalto. Até aí, nenhuma pista de onde aquele pé poderia estar.


Como a vida é feita de detalhes e não existe crime perfeito, lembro-me de ter visto a guia da rua. Havia uma marca de tinta vermelha naquela guia. E a porta do carro foi aberta bem naquele local.


Como a vida pode ser cruel com alguns... Minha mente viaja quilômetros e busco na memória aquela marca de tinta. Eu já tinha visto aquilo em algum lugar. Mas onde? Fiquei alguns minutos tentando lembrar. E, lembrei! Era a porta de uma discoteca que eu frequentava, às vezes, com meu namorado. Fiquei acelerada. O pé era dele, o sapato era dele e a guia da rua era conhecida. Toda vez que eu esperava o manobrista trazer o carro, olhava para aquela marca de tinta vermelha na guia.


Aqui em casa, o relógio marcava 17h30. Um pouco cedo para discoteca. Nem raciocino. Telefono para ele:


- Olá, meu amor, tudo bem? Onde você está? - O malandro se enrola todo!

- Estou aqui na discoteca, vim buscar um CD que deixei com o DJ.

- Humm…..está bem - E, então, o malandro se irrita.

- Mas, como você sabia que eu estava entrando aqui?


Eu não contava minhas histórias para ele. Naquela época, nem eu sabia bem que abria buracos de minhoca. Sem saber como explicar, disse:


- Não sei, eu tive um desejo de falar com você. - E o malandro, malandro que era, armou aquele carnaval.


- Você colocou um detetive para me seguir?

- Eu não! Estou tentando pagar minhas despesas. Você acha que eu gastaria com detetive?

- Mas, então, alguém te avisou. Você pagou o segurança da discoteca para me vigiar.

- Eu não! Nem sei quem é o segurança desse lugar. Você está delirando.


Nessa hora, percebi que o malandro estava exaltado demais. E virei o jogo:


- Não sei porque você está tão irritado, afinal não era apenas para pegar um CD? Não vejo problema em você estar na porta da discoteca às 17h30. Pegue seu CD e nos falamos amanhã.


O malandro não desligou o telefone. E começou a gritar em voz alta:


- Eu vou descobrir quem é o dedo duro que trabalha aqui. Quero que esse infeliz seja demitido. 


Sentindo o melindre da situação, desliguei o telefone e nunca mais falei com o safado. Guardei para mim a lição: nunca limpe o pincel sujo com tinta vermelha na guia da rua, nunca mais namore um malandro e tenha vários sapatos diferentes.


Certamente, alguém perdeu o emprego naquela discoteca.


Mais uma vez, a emoção, o medo, o sentimento de pressa e desconforto estiveram num evento paranormal. Hoje eu sei bem como tudo isso acontece. Onde o medo está, nada é normal. É paranormal! 


ClaudiaVannini






*Para comentar escreva para pegadaastrologica@gmail.com com o título: "O Crime da Mala".


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© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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