Olhos



Dizem que os olhos são a janela da alma.


Os olhos são as única parte expressiva de uma pessoa que vemos ultimamente. Os olhos que vemos nas ruas possuem medo, anseio, alívio, cansaço e, até mesmo, alegria. Tudo isso depende do momento. Aos poucos estou me acostumando a olhar os olhares. E a tirar proveito máximo do que eles podem ou não dizer.


Desde que saí para a rua pela primeira vez eu sei o que é um olhar. Os olhares, hoje, são destaques. São destacados na multidão pela simples falta de acesso visual à boca e ao nariz - como somente a ausência destas duas partes fazem com que os olhos se destaquem?


Os olhos falam o que não conseguimos mais dizer. Agora não só são as nossas janelas para a alma, como também são as portas. Tudo o que vejo são olhos.


Alguns perdidos. Alguns tristes.


As mulheres sentem falta do batom que já não vale a pena usar sob a máscara mas podem caprichar no delineador, no lápis, no rímel. Imagino que para as muçulmanas acostumadas ao hijab e até mesmo à burka, isso já é conversa antiga…E elas geralmente costumam ter olhos bem maquiados, expressivos.


Nesses últimos meses, quantas vezes não me fiz compreender, dei uma risadinha por baixo da máscara e os olhos não acompanharam? Ou estava de óculos escuros! Aí a situação fica mesmo complicada! Com a fala abafada e sem ver os olhos quase que é melhor falar pelo telefone!

Agora vamos fazer uma reflexão, que já não tem nada a ver com o momento atual, era parte de um texto que deixei por terminar... Os meus olhos veem as mesmas imagens que seus olhos veem?


Quando tenho a oportunidade de observar a lua (principalmente a lua cheia), sinto que me aproximo de algo divino, em que pareço estar em sintonia com algo transcendente.


Ver não é simplesmente ver; não é simplesmente perceber com os olhos. Ver é perceber com a alma, com o espírito; é deixar-se envolver-se; é deixar-se cativar. Muitos são os que olham e nada veem, pois não se emocionam com o que as imagens representam. Veem fria e racionalmente. Não sabem, talvez, que é possível mudar a maneira de enxergar o que o mundo nos proporciona. Ou sabem, mas não se interessam por isso; estão tão acostumados com a frieza de seu próprio olhar perante as imagens que se lhes apresentam, que se negam a ver a beleza nelas contida.


É imprescindível, portanto, que se eduque o próprio olhar para aprender a ver com mais emoção o que se passa diante dos olhos. É o aprender a ver, não meramente com os olhos ou com o intelecto, mas o aprender a ver com o coração. Educar o olhar inicia-se com a consciência de que não vemos as imagens, mas sim a nós mesmos refletidos nelas.


Nesse momento podemos exercitar mais o olhar. Privados de outros sentidos (O tato também está totalmente em segundo plano e o olfato, coitado, anda meio sufocado) temos uma oportunidade real de treinar o olhar, pois nunca uma mesma imagem representa a mesma sensação. Cada olhar é um fenômeno diferente do outro, mesmo que se olhe para o mesmo objeto no mesmo lugar, repetidamente. É mais ou menos como a teoria de Heráclito de Éfeso, um filósofo grego, considerado o pai da dialética, que dizia que ninguém entra duas vezes no mesmo rio, pois nem a pessoa é a mesma que havia entrado no rio anteriormente, nem o rio é o mesmo de quando ela havia entrado nele. Tanto um quanto o outro se modificaram com o tempo.

Dizem que os olhos é a janela da alma e eu digo: a alma é o espelho dos olhos.


Maria Tereza De Iullis




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© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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