Pai de menino.




Eu fui criado no ambiente clássico dos anos 80, com muitas brincadeiras legais, interação com os amigos e poder minimamente ir para a escola sozinho andando pela rua. Tudo muito legal, se esse ambiente não estivesse permeado por uma cultura extremamente machista, patriarcal e segregadora.


Essas crianças, que eu brincava, eram todas como eu; brancas, de classe média rancorosa que aprendeu que brincadeiras são de meninas ou de meninos, que tínhamos que ter uma namoradinha aos 4 ou 5 anos de idade e quando, por ventura, eu caísse no chão por algum motivo já vinha o grito clássico “-Levanta, para de chorar – SEJA HOMEM”.


Em 2015, nasceu meu primeiro filho e, junto dele, um pai forjado nos anos 80. Sim, afinal, eu comecei a agir com meu filho de que forma? – Eu acreditei que já era um pai super moderno porque fazia as minhas obrigações paternas como se “ajudasse” minha esposa.


Não, eu não ajudava. Eu fazia a minha parte, a parte inerente ao pai. Com o passar do tempo fui me tornando um pai super enérgico, duro mesmo com os pequenos, já são 2 agora. Tudo era no castigo, no grito, retirando os brinquedos. Mas EU, eu não batia neles, não dava palmadas, olha só que pai “moderno”.


Eu não sabia e nem entendia que, muitas vezes, eu era extremamente violento psicologicamente com eles, ao ponto do meu filho mais velho ficar com medo de mim.


Depois de alertas da minha esposa, já cansada de ver isso, comecei a me ouvir. Com a ajuda da terapia, percebi que eu repetia o que aprendi na infância: que o amor e a atenção dos pais era isso, era ter um filho bem “educado e obediente”, mas, no fundo verdade, era ter uma criança com medo.


Hoje, em 2020, depois de muito olhar para minhas dores por meio de terapias, consigo ser pai melhor. Eu me tornei um pai que busca educar os filhos mostrando o cuidado com o outro, que eles podem brincar com qualquer brinquedo e e que eles podem chorar. E mais: podem chorar no meu colo, porque menino...menino chora, sim!


Para poder interromper a cultura machista violenta em todas as suas formas, até as mais sutis, tenho o dever de ensinar a eles que as diferenças são fundamentais, e, com isso, colocarmos um um fim nessa educação ultrapassada.


Sigo o meu caminho, errando e aprendendo, mas com a certeza de que o legado dessa masculinidade cruel, “heteroterrorista” e nociva a todos, não se perpetuará.


Paulo Faccioni




© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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