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PARA COMEÇAR A TERMINAR



Bruxelas, 29 de abril de 2024


Tia Joaninha,


Hoje fez um dia lindo por aqui. Aliás, desde que eu cheguei, foi o dia mais bonito de sol e céu azul. Agora já não está mais aquele céu lindo, mas pelo menos não chove, o que para os padrões desta cidade é bem bom. Apesar da beleza do dia, hoje aconteceu um negócio muito estranho comigo. E olhe que acordei bem e fiz meus exercícios cedinho porque pretendia ficar na universidade até bem mais tarde.


Do nada, comecei a enxergar aquelas borboletinhas branco e preto na visão do olho direito, que anunciam quando vou ter enxaqueca. Achei tão estranho... Mas, como sempre faço, esperei a alteração na vista passar e a dor de cabeça dar os primeiros sinais e tomei o remédio. Essa de hoje não chegou nem a se configurar de fato uma dor. Nem aquele doloridinho que normalmente fica nos olhos, sabe? Sei lá... Isso foi no meio da manhã. Quando voltei do almoço, vi as mensagens no grupo. Para certas coisas não se deveria usar o WhatsApp. 


Estava aqui me lembrando das nossas aventuras de quando eu era criança. A infância aumenta tudo no mundo, né? Vejo isso tanto nas minhas quanto nas suas histórias de infância. Me lembrei da cena da passagem do supersônico abrindo o céu em cima da fazenda e do tamanho do medo que vocês sentiram; da história da enxadada que o corró irado deu na pobre velha da coité que lhe rendeu um choro danado. 


Me lembrei dos nossos banhos de cacimbão, das viagens no Fiat 147 apinhado de criança, daquele banho na bica do Ipu. Aliás, este ano está bom para voltar lá, tia! Deve estar bem gorda a queda d’água. Mesmo sabendo que me decepcionaria vendo como ela deve estar agora que cresci, eu voltaria lá para tomarmos um banho, só porque eu sei que a senhora gosta é muito de água, não é? Mas não faz falta.


O mais engraçado é que me lembrei também daquela nossa caminhada no final do dia da festa de cem anos da casa. A memória é tão nítida tia Juju, que eu até esqueço que não aconteceu. Mas isso, a senhora não conta para ninguém, está certo? Não deixe que saibam que foi uma invenção nossa só para alinhavar melhor o fim dEstes Azevedos.


Mesmo porque, se recortarmos e colarmos noutras posições o que vivemos juntas, dava demais para termos vivido aquilo. Por isso, deixe como estar. Ficou bonito.


Hoje lhe mandei flores. Pedi que fossem bem coloridas, mas harmoniosas, especifiquei. Também mandei um recado; espero que goste. Meu desejo, tia, era estar agora a caminho de Crateús, mas a distância é tanta que só se eu fosse de supersônico e pulasse de paraquedas, descendo pelo rasgo no céu. No sábado, quando falei com a maínha, ela me pediu: vem pra cá... Isso me doeu nos ossos, como agora dói a solidão.


Espero que não me quebre. Desde que cheguei aqui, ainda não tinha conseguido terminar um texto sequer. Vários estão começados sem pé, nem cabeça. Parece que este será o primeiro a ter começo, meio e fim. Tomara que ele abra a porteira para virem outros, mas sem outra dor dessas. 


Hoje, o céu sobre a fazenda Curral Velho se abriu de novo; dessa vez, para lhe receber e celebrar seus 83 aninhos muito bem vividos. Acho que as borboletas anunciavam sua chegada e a alegria dos que estão aí em cima para lhe receber. Os que ficamos por aqui, seguiremos honrando sua alegria e generosidade. Por isso, tia, vou me servir de umas doses de cachaça e beber à sua vida! E vai ser a mais cara que eu tiver, só para me lembrar da senhora dizendo “aqui, dinheiro muito tem pouco, mas dinheiro pouco tem muuuuito!” e ver o seu sorriso na primeira estrela que brilhar hoje. 


Anna Karenina Azevedo Martins

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