PENFRIENDS




(Texto de 17 de outubro de 2013 - repostado por motivo de saudades)


Penfriend, alguém já teve um?

Também são conhecidos, ou melhor, eram conhecidos, como penpal. Seriam os amigos virtuais de hoje. Mas não sabíamos de imediato como eles eram. Fotos eram enviadas mas levava um tempo para chegar. Não havia como fuçar no Facebook para ver do que ele/ela gostava, quem eram os seus amigos,...


Mas dava pra tentar imaginar como ele/ela seria pela caligrafia, pelo papel de carta, pela cor da tinta da caneta, pelos adesivos colados ao papel, o aroma que impregnava o mesmo...


Dava até para imaginar o lugar onde ele/ela vivia pelos selos coloridos que estampavam o envelope, os carimbos, as sujeirinhas causadas pelo longo percurso...Caminhão, trem, navio, avião...

Eu sempre amei escrever cartas, bastava fazer uma amiga nova num hotel, podia ser até bem pertinho, no Guarujá ou Serra Negra, para já trocar endereços. Se as amizades não duravam, não era por falta de empenho da minha parte.

Minha prima mais querida sempre morou longe, no Rio, Brasília, Goiania, e desde os 7-8 anos eu trocava cartas com ela.


Depois foi a vez de uma grande amiga, que mudou de escola e, à partir daí, começamos a trocar cartas (Morávamos a menos de 5 Km de distancia, mas cultivamos esse hábito delicioso por muitos anos!).

Nunca fui de muitos telefonemas. Escrever era o que eu mais gostava. Ainda gosto!

Já adolescente, tive um namorado que morava fora, claro que eu teria que ter tido também essa experiência. Amor à distancia. Muito triste e sofrido, cada greve dos correios me matava de ansiedade, havia os extravios, os mal entendidos que demoravam a ser resolvidos...

Depois, entrei em grupos de penfriends. Era assim que funcionava: você recebia uma lista com alguns nomes, que já tinham rodado o mundo. Colocava o seu no fim da lista e escrevia uma carta para a primeira pessoa da lista.


Mas eu não me contentava apenas com a primeira pessoa da lista e muitas vezes escrevia para a lista toda. Da mesma maneira, outras pessoas também me “achavam” nessas listas (me lembro ainda delas virem cheia de desenhos e adesivos, em forma de bloquinhos grampeados...) e me escreviam.


Era uma delícia chegar em casa e ver a pilha de cartas em cima da mesa, com muitos dos envelopes margeados de vermelho e azul, outras maiores, com surpresas dentro delas. Revistas, posters, adesivos, entradas de cinema, de shows,...

Durante alguns anos tive mais de 20 penfriends, muitos deles no Japão, meninas super caprichosas, com letras perfeitas e papéis de carta perfumados. E um grande amigo, que me mandava presentes, fitas cassete, bolachas, livros de gravuras,...Torcia para o São Paulo F.C como eu, era educado e gentil. Nossa troca de cartas durou quase 10 anos.


Também tive penfriends na Polinésia Francesa, África do Sul, Estados Unidos e muitos na Europa. Inclusive, minha primeira viagem para lá foi planejada com o intuito de conhecer algumas das minhas penfriends. Perfeito. Eu teria onde me hospedar e conheceria essas “amigas”, falaria outras línguas. Escrever essas cartas me fez aperfeiçoar meu inglês, francês, espanhol e italiano.

Fui primeiro para Lisboa, depois segui para Paris e de lá fui para Londres e Bristol, na Inglaterra. Depois vieram Vevey, Montreux, Genéve e Zermatt, na Suíça. Genova, Firenze e Roma completaram meu tour de quase 40 dias. Experiência única, cheia de surpresas, que só uma época sem internet poderia proporcionar.

Em outras viagens me encontrei com uma penfriend no Cairo, Egito, com outra em uma pequena cidade da Grécia e com meu marido passamos dias maravilhosos com minha penfriend que mora em Viena.

Tive penfriends na antiga Iugoslávia e na Alemanha Oriental, lugares que nem existem mais! Ainda tenho algumas das minhas antigas penfriends como amigas, a melhor delas vive na Inglaterra e sempre que dá tentamos nos ver. Trocamos emails mas muitas vezes ainda insistimos em mandar ao menos um cartão de Natal que não seja virtual.

Hoje eu incentivo meus filhos a escreverem para os amigos, mesmo que sejam emails, mensagem no Skype ou SMS. Mas prefiro mesmo que possa ser uma carta de papel real. Outro dia na escola cada aluno escreveu uma carta para um amigo ou parente que vive longe e foram ao correio enviá-la. Ficaram todos super entusiasmados!

Também me empenho para que escrevam corretamente, sem gírias ou abreviações bizarras. Que possam começar a carta hoje e terminar só amanhã, colorir o papel, borrifar um perfuminho, colar adesivos, incluir figurinhas repetidas.


Na nossa "era" imediatista, isso é um luxo, um prazer que quem pode e sabe como, deve se permitir.

Maria Tereza De Iullis


*Clique aqui e leia mais "FORA da CASINHA" com Maria Tereza De Iullis




© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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