Qual peteca deixar cair?


*Texto de maio de 2014 - postado na primeira fase do EU NÃO ANOTO NADA*


Depois que me tornei mãe, uma sensação me acompanha constantemente: a de que, em determinado momento, alguma peteca vai cair. Que eu vou esquecer algo muito importante, que não vou conseguir cumprir todos os horários e compromissos. Isso me angustia e me faz pensar se eu realmente vou dar conta de seguir a vida sendo mãe, sem deixar de ser eu mesma.


Durante toda a vida, o desafio que temos é o de equilibrar as diversas petecas que aparecem (ou pratos, bolas, clavas o que o leitor preferir) da forma que melhor combine com o que desejamos, com aquilo que nos faz feliz. Sejam essas as petecas do trabalho, da família, do amor, do lazer, da saúde, da beleza. Ou qualquer outra.


Em alguns momentos é comum surgir o questionamento: estamos com as petecas certas nas mãos? Será que algumas estão voando mais alto do que deveriam? Será que estamos deixando petecas importantes fora do jogo? Quais petecas devem cair e qual devemos continuar a equilibrar?


Essa é uma tarefa comum, que faz parte do grande desafio que é viver. Todos somos malabaristas diante da complexidade da vida.


Me pergunto então, por que, depois que me tornei mãe, a sensação de petecas caindo é tão forte e tão presente. Antes de ser mãe, eu já exercia esse desafio, ao equilibrar carreira, relacionamentos, amizades, lazer, saúde etc e etc! Mas porque agora a sensação de que “algo vai escapar” é tão mais intensa?


Penso que grande parte dessa sensação se dá por dois fatores, nem sempre fáceis de serem reconhecidos.

  • Os filhos não são uma peteca qualquer: eles são uma peteca definitiva, muito difícil de ser deixada de lado, mesmo quando se decide por essa opção. A partir do momento que alguém tem um filho, todas as outras petecas vão ter que se re-arranjar a partir desse acontecimento. E, dificilmente, o equilíbrio geral não será afetado.


  • Quando nasce um filho, nasce também um novo malabarista – a mãe - que terá que re-aprender a equilibrar suas bolas, petecas ou clavas como se fosse uma iniciante.

Tornar-se mãe então não apenas acrescenta um aspecto definitivo a ser equilibrado para o resto da vida da mulher, mas também a transforma, fazendo dela uma malabarista aprendiz. Como uma iniciante, terá que aprender, do começo, como equilibrar as mesmas e a nova grande bola, a partir de uma nova pessoa. Não importando se a maternidade chega aos 20, aos 30 ou aos 40 anos.


A partir dessa perspectiva, fica mais fácil entender porque, no picadeiro da vida de mãe, as bolas e petecas desequilibram e ameaçam cair com mais freqüência do que gostaríamos, do que estávamos acostumadas em nossa vida antes dos filhos.


Penso que a única forma de lidar com isso é olharmos para nós mesmas com humildade. Aceitarmos que, do alto de nossos poucos anos de maternidade, temos ainda o direito de nos sentirmos estabanadas, atrapalhadas. De não sabermos ao certo quais bolas/ petecas queremos ou temos a capacidade de manter equilibradas no ar.

De pensar e repensar:

Quais petecas eu posso / quero equilibrar nessa nova fase?

Quais petecas eu não posso / não quero deixar cair?

Quais aquelas que eu gostaria que estivessem no jogo mas que, no momento, são demais para mim?


E reconhecer que precisamos de tempo para re-aprender o difícil jogo de priorizar... E que, dentro desse tempo, algumas petecas vão cair, para que as outras consigam continuar no ar, se equilibrando na bonita dança que é o viver...


Até a próxima!


Isabel Coutinho






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© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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