Quando o desejo não se encontra com a realidade (texto de dezembro de 2016)




Da janela da minha nova casa, olho admirada para as janelas de prédios vizinhos, onde consigo enxergar grandes árvores de natal, daquelas que vão do teto ao chão, iluminadas e enfeitadas. Cada dia que passa, me espanto com a quantidade delas que surgem, lindas, imponentes, colorindo minha vista noturna.


Toda vez que vislumbro uma dessas beldades, sou inundada por instantes de felicidade. Gosto de árvores de Natal grande e iluminadas! Não sei bem explicar o porquê. Me trazem uma sensação boa de paz e felicidade. Se esse sentimento está influenciado pelo grande número de cenas cinematográficas que retratam momentos felizes diante de uma árvore iluminada, eu não sei. Apenas falo desse sentimento simples e infantil que tenho ao observá-las.

O calendário me avisa que o Natal está cada dia mais próximo. Mas eu, ainda atrapalhada com as demandas da vida nova, me sinto cada dia mais longe de conseguir providenciar uma decoração de Natal para o nosso novo apartamento. No Brasil, costumava ter uma caixa cheia de luzes, laços e enfeites para decorar a casa nessa época do ano. Mas, por alguma razão, doei grande parte do que havia dentro dela. Acho que estava um pouco cansada da velha árvore artificial de galhos finos, que faziam com que os enfeites pendessem vazios nos espaços entre as folhas. E também de ver aqueles enfeites já usados durante muito anos, alguns já remendados e quebrados. Ou talvez apenas quisesse me livrar de um monte de coisas já usadas na tentativa de encontrar algo melhor naquilo que é novo e inédito.


O fato é que minha casa não tem sequer um enfeite natalino. Nem exposto e nem guardado. Nenhumzinho, sequer!


Na vizinhança, pipocam vendedores de pinheiros naturais de todos os tamanhos e tipos. Eles colocam os lindos pinheiros ao longo das calçadas e, de passagem, inspiro aquele cheiro delicioso que lembra festa e família. Já me vi namorando vários deles, mas ainda não consegui achar nenhum que me fizesse a cabeça.


Outro dia, me peguei pensando nisso - na árvore, nos enfeites e no porquê não consigo comprar nada de natal – e me dei conta de que a minha dificuldade em achar um pinheiro e seus devidos acessórios verdes e vermelhos não está na falta de tempo e na vida atribulada. Mas sim no fato de que, na minha cabeça, eu tenho um modelo de árvore que não combina, no momento, com aquilo que eu posso ter. E, por conta disso, acabo achando que nenhuma é bonita o suficiente para me satisfazer.


Eu queria muito ter uma árvore de Natal como aquelas da minha janela. Mas, ao invés de admirá-las e seguir meu caminho, fico imóvel desejando-as para mim. E me frustro quando me dou conta de que não posso tê-las. Por total falta de habilidade. Ou talvez, me ocorre agora, por falta de verdade. Aquelas árvores são lindas através da janela. Porque pertencem a um lugar desconhecido e inacessível, que eu posso preencher com todas as minhas fantasias infantis. Que eu posso rechear com toda aquela felicidade e sonhos realizados que eu tanto desejo.


Talvez o que eu necessite é conseguir olhar para a beleza da decoração que eu serei capaz de construir. E viver em paz com tantas outras diferentes que existirão por aí... E que a minha admiração por elas não impeça de ver o que há de belo naquela que ficará aqui, pertinho de mim, ali no canto da minha sala de estar...


PS: Depois que escrevi esse texto me dei conta que, dois anos atrás, publiquei, aqui mesmo, algo muito parecido que também falava do meu desconforto frente a minha pequena e sem graça árvore de Natal. De antemão, peço desculpas pela recorrência do tema, já me dando conta de que, tudo indica, não fui capaz de assimilar minha própria mensagem e tenho que, novamente, escrevê-la para ver se dessa vez eu consigo, finalmente, escutá-la.







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