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Quem você é. Quem você pensa que é. Quem os outros pensam que você é.


A tríade da existência.


Parece ser tão óbvio, mas não é.


Ao longo dos anos não perdi ninguém. Foram as pessoas que se perderam de mim quando os detalhes das suas vidas deixaram de estar em sintonia com quem eu sou.


Com quem eu penso que sou.


A vida é mesmo assim, feita de partidas e chegadas. Não lamento o que vivi, o passado são páginas da minha história que não posso rasgar sob pena de ficar incompleta.


Mas já fui muito o que os outros pensavam que eu era. Não quem eu pensava que eu era.


Um dia, a paciência se esgotou. Não cedo mais para ser quem os outros pensavam que talvez eu fosse. Mas que não era. Talvez eu mesma pensasse que eu fosse.


Uma coisa bem interessante que acontece na medida em que vamos mudando é que quando vamos para os mesmos lugares já não queremos fazer as mesmas coisas de antes.


Nem a tal da "wish list" resiste ao tempo e às mudanças internas de cada pessoa.


Sempre fiz listas de viagens que eu gostaria de fazer, lugares que eu gostaria de visitar na minha cidade mesmo, restaurantes para experimentar...Mas faz um tempo que tenho deixado um pouco essas listas de lado e tem sido comum "passar na frente" coisas inusitadas, que aparecem na hora ou são indicação recente.


Não há mais necessidade de "ticar" nada novo. Repetir os lugares que eu gostei tem tido sabor de novidade.


Porque quem eu era ou pensava ser, já não sou mais.


Há muitos anos tenho anotado um parágrafo de um discurso de Martin Luther King.


Está na contra capa da minha agenda e venho recopiando-o todos os anos, tipo um mantra:


"Nós não somos o que gostaríamos de ser. Nós não somos o que ainda iremos ser. Mas, graças a Deus, não somos mais quem nós éramos".


Por isso não quero saber de discussões ou brigas que envolvam o famoso "você fez isso no passado, você agiu assim e assado, você me fez mal,...". Para essas situações só resta pedir desculpas e seguir adiante. Nada nos fará voltar no tempo e reviver desgraças passadas só faz mal.


Para mim isso está resolvido e sacramentado.


Mas nem sempre é fácil, na verdade é quase sempre muito difícil, lidar com a expetativa alheia sobre você ainda ser quem você era.


Não sou mais. Ponto.


E, para encerrar, me caiu nas mãos uma poesia do ilustre Camões, perfeita para esse epitáfio existencial.


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontade


"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Muda-se o ser, muda-se a confiança; Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades, Diferentes em tudo da esperança; Do mal ficam as mágoas na lembrança, E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto, Que já coberto foi de neve fria, E enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto: Que não se muda já como soía."


Luís Vaz de Camões


Maria Tereza De Iuliis

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