Reflexão (texto de abril/2014)




Já dizia o poeta: “Para ser grande, sê inteiro. Nada seu exagera ou exclui” (*)


Ando pensando bastante nisso. Até porque acho que sempre acreditei no caminho do meio, na conciliação de coisas, no “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”... Mas, ultimamente, ando gostando mais dos extremos.


Não dos extremos radicais, passionais e inconseqüentes. Mas do extremo consciente, bem posicionado, centrado. De quem sabe o que acredita e vive de acordo com isso. De quem se conhece e tem como objetivo não trair o que dita o seu coração.


As mães da nossa atualidade, por exemplo. Estão sempre às voltas com uma questão: vida profissional x cuidado e dedicação aos filhos. No consultório, nos blogs, nas comunidades que eu participo, essa é uma discussão recorrente, um tema interminável entre mulheres que são mães. Umas trabalham e defendem veementemente sua independência. Outras defendem a necessidade de sua presença constante para manutenção da saúde e bem estar dos filhos. Mas, a grande maioria, permanece na coluna do meio. Ora tem vontade de sair, trabalhar, retomar a carreira. Ora não. Muitas retomam, param, retomam de novo e param de novo. Outras, ficam em dúvida do que fazer e são eternamente atormentadas por seus pensamentos e cobranças.


Outro dia observei duas mães que conquistaram minha admiração. Duas mães que vivem realidades opostas uma da outra, mas que são inteiras naquilo que fazem.

A primeira delas, mãe de dois filhos, é uma grande executiva. Linda, bem vestida, cheia de jóias, carrão. Durante a semana, convive pouco com os filhos e os deixa aos cuidados de motoristas e babás. Diz que adora trabalhar. Ama tanto o que faz que, quando fala disso, seus olhos brilham. Não questiona sua postura e é feliz assim.


A outra, é mãe dos filhos em tempo integral. Leva, busca na escola, acompanha as aulas de natação, as refeições, sonecas e brincadeiras. Participa da rotina e do cuidado com os filhos com intensidade e animação. Sabe que será difícil se recolocar profissionalmente mas não se importa com isso. Na verdade, nem pensa nisso. É mãe, se realiza assim e ponto final.


Apesar de terem atitudes opostas em relação à forma de vivenciar a maternidade, nenhuma delas me pareceu mais ou menos mãe. Nenhuma delas me pareceu amar mais ou menos os filhos. Nenhuma delas me pareceu mais certa ou mais errada.

Sabe por quê? Porque ambas estão inteiras em sua posição. Ambas conhecem a si mesmas e são fiéis àquilo que faz sua felicidade.


E não se trata de egoísmo. Mas de uma postura consciente de quem sabe que a felicidade de quem os cerca está diretamente ligada à própria felicidade. Nenhuma mãe infeliz faz filho feliz, por mais que esteja 100% do tempo com eles. E isso vale para tudo.


O sofrimento vem da dúvida, da falta de coragem de se posicionar, do desconhecimento do que te faz feliz, do que te realiza.

Então mães, que tal seguir o conselho do poeta? Sejam inteiras! Para, aí sim, serem grandes naquilo que decidirem fazer...


Até a próxima!


(*) Trecho do poema de Fernando Pessoa / Ricardo Reis

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive


Isabel Coutinho

contato@isabelcoutinho.com





*clique AQUIpara mais textos da Isabel Coutinho.

© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

  • Facebook ícone social
  • YouTube
  • Instagram
  • Pinterest