Reflexões Pandêmicas



Quando escrevi meu primeiro texto de volta ao EU NÃO ANOTO NADA, no início desse ano, eu terminei com um parágrafo bem melancólico, sobre as escolhas que fazemos sem nem imaginar o que estava por vir! Sou daquelas que não sofreu com o aprisionamento físico da quarentena, pelo contrário, tirei proveito daqueles meses. Como aqui em Lisboa o lockdown sempre nos permitiu sair para fazer compras essenciais e também era permitido caminhar, correr, andar de bicicleta, o sacrifício também foi menor que em tantos outros lugares. Na época comecei a escrever um texto mas assim como tantas coisas, acabei por abandoná-lo. Copio aqui o que poderia ter sido uma boa reflexão sobre o tema…Mas agora já não há sentido em retomá-lo: “A quarentena é como estar numa travessia longa no mar, não em um navio de cruzeiro, mas em um barco menor. Do tamanho do meu apartamento. Com vista e varanda, janelas em todos os ambientes. Mas a travessia é longa e  quase não há paradas. De vez em quando o barco faz paradas para abastecimento e vamos ao mercado, damos uma volta. Não podemos inventar programas diferentes ou passeios porque estamos nessa travessia e não há como sair do barco sem correr riscos. Acho que ver as coisas sob essa perspectiva é muito bom. Quando não dá, não dá”

(Abril 2020) Durante a quarentena retomei a meditação pra valer e fazia muito tempo que eu não fazia caminhadas tão longas. Nessas caminhadas gravei longos áudios para algumas amigas, refleti muito, tirei fotos da cidade vazia, vi o inverno virar primavera e depois já era quase verão! Acho que não ter a cobrança de ter algo para fazer ou a culpa por não estar fazendo nada, afinal de contas, não era minha culpa, foi libertador. Meu marido constatou que em quase 25 anos casados nunca ficamos tanto tempo direto juntos…Desde Outubro do ano passado que estamos os dois aqui (Quebrei o ciclo apenas no final de Agosto, por 12 dias, quando fui para a Grécia com a minha filha). Claro que houveram momentos de tensão, algumas brigas familiares (Jogar War está proibido por aqui por um bom tempo!), ansiedade pelo que ainda está por vir, contas para fazer,…Mas não sucumbimos ao desânimo em nenhum momento, dormimos e comemos bem, nos mantivemos ativos, não nos estressamos com o ensino à distância (Ok, meus filhos tem 14 e 17 anos, já quase não precisam de ajuda). Não me cobrei coisas que outras pessoas estavam fazendo, não fiquei fazendo cursos, assistindo trocentas lives, nem participando de encontros pelo Zoom…Ocasionalmente cantamos parabéns, falamos com a família, gravamos alguma homenagem especial. Mas só quando quisemos e para quem fazia realmente sentido. Vi pessoas se desdobrarem para cumprirem mil tarefas, como se não fosse cabível ficar com a agenda vazia…Para quem teriam que dar satisfação? Ah, sim, tivemos que aguentar as milhares de postagens nas redes sociais, de pessoas que diariamente submetiam os amigos à execução de demonstrações pessoais de yoga, dança, culinária, caminhadas narradas,…Alguns exteriorizavam os pensamentos, como se estivessem numa sessão coletiva de terapia com os montes de “amigos” do Facebook! Vi adultos crescidos (Bem crescidos!) se comportarem como crianças exibidas. Pagando mico de verdade, sem a menor noção do ridículo. O tempo passou e já faz 4 meses que por aqui estamos quase levando uma vida “normal”. De máscara até para ir tomar banho no vestiário da academia, encontrando os amigos quase sempre ao ar livre, nos encostando nas paredes em ruas estreitas, falando com os olhos, nos acostumando aos cardápios virtuais nos restaurantes, à ocasional medição de temperatura em alguns lugares,… Mas nesses meses todos fizemos muitas coisas boas, uma delas foi viajar bastante pelo país e conhecer lugares incríveis. Não estava nos nossos planos passar o verão todo em Portugal mas foi muito bom. Menos turistas, mais alegria pelo privilégio de podermos fazer algo que ainda era/é proibido para tantos, poder circular de carro, ir para as praias, fazer piqueniques nos parques, visitar os monumentos históricos que estiveram vazios,…E agora, recentemente, as escolas reabriram e eu não imaginava quanta alegria isso traria para as nossas crianças e adolescentes. Mesmo os que negavam querer a volta às aulas, como meu filho, que dizia que queria continuar jogando online com os amigos, está numa empolgação sem tamanho! Claro que sempre houve e há a preocupação com o aumento dos casos, com a quebra da economia e das nossas finanças pessoais, quando poderemos ir para o Brasil (saudade que aperta o peito cada vez mais!), como estão nossos amigos e família, com a política, as queimadas,…Não quero parecer abstraída disso tudo, mas poder se abstrair de tantas coisas às quais nos habituamos e que fazemos em modo automático, foi e tem sido muito bom. Só voltamos a ver os amigos que importam, não há mais festas de aniversário ou reuniões obrigatórias. Até as intermináveis e chatas reuniões de escola  não vão acontecer. Uma limpeza na vida à revelia. Só fica o que tiver que ficar. Só fico muito curiosa para conhecer o rosto das tantas pessoas que entraram na minha vida, já na pandemia, e que eu nunca vi sem máscara! Funcionários novos na academia, no supermercado do bairro, no serviço de limpeza das ruas, no posto de saúde,…Já são muitos meses a vê-los somente com os olhos à mostra. Ordem inversa das coisas, primeiro lhes conheci a alma! E vamos em frente!


Maria Tereza De Iullis




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© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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