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Resoluções de Ano Novo




Como resolução de ano novo, decidi que vou me obrigar a escrever todos os dias. Uma página por dia. Talvez deixe os domingos de lado, ainda não sei. Mas decidi que vou escrever.


Morando em uma cidade pequena e tendo acabado de pedir demissão do trabalho remoto que garantiu minha saúde mental nos últimos 18 meses, escrever é o que posso fazer, nesse momento, para não me sentir engolida pela falta do que fazer ou pelas obrigações infindáveis com a casa, com os filhos, com o futuro e tudo isso que todo mundo está careca de saber como é.

 

O engraçado é que eu nunca gostei muito das tais resoluções-de-ano-novo. Mas confesso que a ilusão de um possível recomeço sempre me cai bem. É quase organizador. Uma possibilidade conjunta de apertar um botão de “STOP” e, em seguida, um novo “PLAY”. Então aqui dentro do meu filme-vida, escolhi aproveitar o embalo e colocar os dedinhos para trabalhar com mais disciplina e regularidade.

 

Vale ressaltar, no entanto, que esse projeto soa muito lindo, até factível, se eu pudesse garantir que todos os dias da minha vida vão transcorrer nas “condições normais de temperatura e pressão”, para citar o pouco que lembro das minhas aulas de química do colégio. O que, pelo meu histórico, já digo logo: impossível! 

 

Recentemente, por exemplo, fui à uma sessão de acupuntura – daquelas que o moço “escuta” nosso pulso antes de espetar as agulhas - e me deparei com uma avaliação inquietante. Segundo o profissional – um homem não de muitas palavras - meu pulso soava um tanto curioso. “Interesting”, nas palavras dele. “Como assim?” Ele disse que sentia algumas pulsações fortes e saudáveis em algumas partes (ufa!) mas, no entanto, também sentia um pulso fraco e distante, em algumas outras. Fingi tranquilidade mas, a vontade que tive mesmo é de falar para ele: “Bingo! Na mosca! Acertou em cheio”! Finalmente encontrei uma explicação para a montanha russa desgovernada que vem sendo a minha existência nos últimos tempos. O corpo não mente, não é mesmo?  

 

É claro que eu queria ter explorado mais o assunto e encher o homem de perguntas! Mas resolvi respirar fundo e aceitar o veredito com humildade e certo alívio. Já nos meus quarenta e muitos, tenho começado a receber visitas inoportunas e, ao meu ver, um pouco precipitadas, de vários sintominhas que me soam como precursores daquela tal da menopausa. Eita palavra feia, vá de retro! Vou chamá-la de Felícia que soa mais feliz. “Tolinha!” imagino Rita Lee terminando essa frase, como ela faz inúmeras vezes no seu livro Rita Lee - Uma autobiografia, São Paulo, Globo, 2016, uma deliciosa leitura.

 

Pois é... Variações de humor a dar com pau, crises de choro do nada, irritação lá na casa do baralho (modificaçãozinha pequena de apenas uma letrinha para ficar um pouco mais elegante) e disposição que varia entre “nunca mais vou conseguir sair da cama” à “vou correr uma maratona agoooooooooora”. E com poucas horas de diferença uma da outra.

 

Mas não sejamos hipócritas. Tudo isso não é culpa somente da Felícia. Ela só está intensificando coisas que, lá no fundo, sempre foram parte de mim, de como eu sou e existo aqui nesse mundo. Minha forma de ser é essa confusão tudo-junto-agora de racionalidade e energia misturada com um humor imprevisível, coragem vacilante e sensibilidade à flor da pele. Quando me olho ao longo do tempo, vejo nitidamente meus dias, meses e anos flutuarem entre uma força vibrante e intensa - que quer abraçar o mundo - e uma fraqueza debilitante e dolorida, que me limita e me apequena. Já culpei os hormônios, a depressão, o stress e tudo mais que o bom leitor possa imaginar.  Não entendo porquê funciono assim e, confesso, acho difícil de aceitar. Saber disso, no entanto, me dá a chance de repensar meus planos e revisá-los com mais sabedoria.

 

Sendo assim, reformulo junto com vocês minha resolução-de-ano-novo para torná-la mais realista: vou me propor a escrever todos os dias que eu estiver me sentindo forte, positiva, confiante. Melhor assim, não é?

 

Pausa.

 

“Ou será que não?”

 

Será que não deveria ser exatamente o contrário? Será que os dias de fraqueza não seriam os melhores para escrever? Aqueles dias onde os sentimentos estão mais latentes, mais acessíveis, precisando, de algumas forma, transbordar? Como aconselhou sabiamente a artista Meryl Streep num dos seus discursos de agradecimento a uma premiação em 2022: “Take your broken heart and turn it into art.” 

 

Não tenho a resposta por agora. Quando descobrir, conto para vocês.


Isabel Coutinho

 

 

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