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São João



Era a primeira vez que eu participaria da quadrilha do colégio, embora hoje não me lembro como isso foi possível. É que nós éramos membros da Igreja Batista Regular Israel; quer dizer, nós não, meus pais. E isso implicou em vários aspectos da nossa vida, principalmente de infância. De modo que, participar da quadrilha naquele ano era um acontecimento. Os ensaios sempre começavam bem antes, pra dar tempo da gente aprender direitinho os movimentos. Digamos que eu estava no auge do meu nono ano de vida e dançar a quadrilha seria um evento importantíssimo. 


A roupa, ah... a roupa. Fui com a mainha comprar o tecido nas lojas Pernambucanas e o modelito, ditado por mim, ficou assim: saia de babados com renda nas barras, uma blusinha de manga fofa e uma, que eu chamaria de ceroula, branca, também finalizada com renda e elástico na perna.


Escolhi uma estampa em algodão, aliás, será mesmo que eu escolhi? Porque lembrando bem, ela perecia muito mais o gosto da mamãe do que o meu: uma estampa pequenininha, em tons de marrom e bege. Linda, mas pouco colorida. Deve ter sido ela.


Eu amava comprar tecidos, desenhar o modelo e ver minha mãe costurar. Só odiava ter que experimentar. Mas a roupa do São João, eu experimentaria quantas vezes fosse a precisão.


Na cabeça, acho que colocaríamos apenas fitas feitas com o tecido da roupa. Estava tudo definido. Foi aí que eu comecei a me sentir cansada. Deveriam ser os ensaios. Chegava da aula na hora, mais ou menos, do almoço, e ficava deitada na cama da mainha, que era a primeira parada na longa caminhada da porta de entrada até a cozinha.


Os meninos que corriam feito notícia ruim, chegavam e logo já estava desvestidos das fardas e ocupando todos os espaços da casa. 


Na terceira ou segunda vez que isso aconteceu, a mainha resolveu investigar.

— Filha, o que foi? Você está se sentindo bem?

— Não sei, mãe. – deitada até os joelhos de barriga pra cima e braços abertos, olhei pra mainha ali de pé, sob o umbral da porta, e reforcei a não sabência com os ombros e as sobrancelhas. 


A saia azul marinho de 4 pregas fêmeas se espalhava o quanto podia, o que não era muito, e a blusa branca com seus detalhes também marinhos me parecia aconchegante, mesmo depois que pedalar um bom tanto embaixo da claridão do sol cearense. Ela se aproximou, pegou meu punho, segurando com delicadeza e sentou-se ao meu lado. Depois veio a mão na testa.


— Parece que você tá com febre. 


Naquele mesmo dia, começamos a observar meu xixi ficando escuro, escuro, escuro. Eu, cada vez mais mole, até que um dia precisei que fossem me buscar na escola. Minha roupa estava quase pronta e o médico não conseguia nos dizer o que eu tinha. Foi aí que a mamãe pegou dois livros bem grossos e foi estudar. Esses livros ela guarda até hoje. 


— Doutor, ela pode estar com hepatite, não pode?

— Pra se ter certeza é preciso fazer um exame de sangue. – exame de sangue? Eu nunca tinha feito um exame desses. Não, agulha só pra injetar água na cabeça das lagartixas, mas em mim, não.


Pois não é que era hepatite? Tudo limpo com creolina, pra não existir o risco dos meninos pegarem, nada de escola, nem igreja, repouso absoluto. Nada de tempero nem sal na comida, que é pra não ofender o fígado. Doce liberado e... repouso absoluto? Por quanto tempo?


— Mainha, será que vai dar tempo de dançar a quadrilha?

— Não sei filha, mas se você repousar direitinho talvez dê. – nunca me esforcei tanto pra repousar direitinho. Mas nessa época é muito difícil repousar com responsabilidade. 


Comecei a ler revistinhas e foi aí que descobri os livros de animais que a gente tinha lá em casa. Lindos! Até hoje me lembro que tinha no mundo um crocodilo de mar com mais de 5 metros. Eu ficava assombrada com o tamanho do bicho.


Meu pai trazia uns bombons de banana que eu adorava; tanto, que não enjoei. Não sei porque, me lembro mais de ficar no quarto dos meninos do que no meu mesmo. Descansei, descansei com toda a força, mas os dias não me acompanhavam no descanso. Eles passavam um depois do outro debochando do meu aperreio. Fiz a última prova da roupa de São João. Estava linda de viver. 


Eu vinha me sentindo bem melhor a cada dia, mas foi só entrar a semana da quadrilha, que veio uma recaída, a ponto de voltarmos ao médico. Era assim mesmo essa doença. Maldita! Acho que chorei. Não era possível que na primeira vez que participaria do São João, acontecia isso. Deus não me queria bem, só podia ser! A tristeza ganhava corpo dentro de mim, escura como meu xixi e doída como eu toda. Mas ainda outro desafio me esperava.


Não me lembro de minha mãe ter combinado comigo com antecedência. Só me lembro de que na manhã da quarta-feira ela me disse que a Mara e a mãe dela viriam em casa me pedir a roupa emprestada, pois a Mara tinha decidido dançar o São João. Ou estou criando caraminholas, ou minha mãe falou mesmo, que eles estavam com algumas questões em casa, por aquela época, e por isso a Mara não tinha querido brincar a quadrilha, mas depois mudou de ideia.


Era de lascar! Não tinha cabimento aquela situação! Além de não dançar a bendita quadrilha, ainda por cima tinha que emprestar minha roupa novinha pra Mara, a menina mais bonita da sala? Era demais para o meu fígado!


Hora da visita e elas chegaram. Eu, nervosa. Nervosíssima, porque recebia em casa uma pessoa que eu admirava tanto, com a aquela cara de doente, que não se pode disfarçar de jeito nenhum. Foi a única vez que a Mara esteve na minha casa. Posso imaginar que a mãe dela tenha sido gentilíssima comigo, cuidadosa mesmo. Eu e a Mara saímos assim, de perto delas e ficamos conversando sozinhas e elas lá combinando os termos do empréstimo.


Enfim, resolvido. Afinal, eu não estava predestina a guardar fel na vida. Nos despedimos e eu fiquei imaginando como a roupa ficaria bem nela. Talvez até melhor do que em mim. Não pude nem assistir à quadrilha. 


Fazer o quê? A vida começava a me ensinar que existe um negócio chamado frustração e quanto antes a gente aprende a lidar com ela, melhor. Não tem um ano que eu não me lembre dessa roupa, quando chega a época das festas juninas. Me dá uma saudaaade...


Da próxima vez que for a Russas, vou perguntar à Mara se ela tem alguma foto daquele São João. Que ir a Russas que nada! Vou é saber se ela tem Facebook!


Anna Karenina Azevedo Martins

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