Sobre maturidade, orgulho e recomeços




“- Mamãe, você está chorando?” - perguntou meu filho mais novo.


“- Sim, estou filhinho. Mas não é nada com você, mamãe teve uma reunião de trabalho e não foi boa, mas já vai passar”.



Sexta-feira, próximo das cinco horas da tarde. Última semana de férias. Semana que vem? Crianças de volta a escola, depois de 6 meses em casa todos os dias.


Sério? Crianças de volta presencialmente a escola? Não, parece que não. Acabei de saber que o prefeito adiou o inicio das aulas. Daqui há dez dias parece mais sensato, dizem os jornais. “Tudo bem”, pensei eu. “O que são mais dez dias?”. Afinal de contas, já temos nossa rotina. Já organizamos nosso espaço. Já aprendemos a administrar um ao outro, já nos acostumamos a nossa presença sem descanso. “Vamos seguir em frente, sem dramas”, pensei eu. Fiz os ajustes necessários, adiei alguns compromissos, refiz minha agenda e aceitei o fato com boa vontade e sem reclamar.


No meio dessa confusão e dos reajustes necessário, me esforcei para não esquecer da minha reunião próxima às cinco da tarde. Afinal de contas, quero recomeçar. Recomeçar não, pois nunca parei. Mas quero acelerar as coisas, quero colocar minhas atividades de volta ao seu ritmo. E marquei essa reunião exatamente por isso! Pois quero participar mais ativamente, quero estar mais conectada ao meu propósito, ao meu chamado de estar perto de quem precisa, de ouvir, de dar suporte, de comparecer, de mostrar minha cara e avisar que estou aqui. Pois o que adianta estar se ninguém sabe que estou, não é verdade?


Pois bem, seguindo essa ânsia, há alguns dias, me associei a um grupo de terapeutas que participam de um portal on-line que conecta profissionais com possíveis clientes. Como estou morando fora do Brasil e com vontade de ampliar minha clientela nas terras brasileiras, me pareceu fazer muito sentido essa associação. Além de um suporte inicial para questões técnicas, aos recém integrantes, é oferecido uma consultoria com especialistas na área digital para profissionais de saúde. A ideia dessa consultoria seria oferecer um diagnóstico do meu perfil profissional dentro do Portal e sugerir os pontos a serem melhorados para que meus produtos tivessem uma maior aceitação.


Ao conectar-me à reunião na hora marcada, algo me incomodou de imediato: a consultora designada a me ajudar devia ter, no mínimo, vinte anos há menos do que eu. Sim, você está lendo certo: o fato dela ser tão mais nova que eu, sim me incomodou.


“Tudo bem”, pensei eu. “Sou moderna, avançada, não ligo para essas coisas de idade. Estou recomeçando, tenho que ser humilde e aceitar as novas regras do jogo”, tentei apaziguar meus sentimentos.


A reunião começou com o pedido de que eu me apresentasse. Brevemente, então, falei de mim. Fiz um resumo sobre as minhas inúmeras formações, dos anos de estudo, dos finais de semana dedicados a aprender, da seriedade, do meu compromisso com o bem-estar do outro. Do investimento infindável em cursos, em terapias, em autoconhecimento. A moça se mostrou bastante atenciosa e pareceu ouvir com atenção. Demostrou respeito. Por delicadeza, em algum momento da conversa, até elogiou minha formação. Por formalidade e educação, agradeceu meu interesse em fazer parte do grupo. Tentou me escutar com paciência até talvez não mais suportar a minha ânsia e necessidade de mostrar meu valor e poder, finalmente, expressar a sua opinião. E foi quando ela começou a falar que que um turbilhão de emoções, seguidos de um outro bom tanto de lágrimas – as flagradas pelo meu filho - começou...


Aparentemente, na opinião da jovem moça, meu perfil profissional no site não estava nada bom. Estava, na verdade, muito longe de ser atrativo: não explicava direito, não oferecia soluções para os problemas que as pessoas têm no dia-a-dia, não estava chamando a atenção, nem mostrando meus diferenciais. As minhas explicações e meu discurso sobre a importância das pessoas dedicarem um tempo para se olhar e auto conhecer, estavam muito básicas e despretensiosas. Minhas promessas de que, quando nos olhamos com tempo, cuidado e dedicação, aumentamos nossas possibilidades de construir uma vida com mais sentido e mais felicidade, soavam pouco grandiosas. Humildes, até.


“Ter uma boa formação não era o suficiente”, me dizia a moça. Eu tinha que mostrar mais! Mostrar fotos, vídeos, oferecer produtos, pacotes, promoções. Tinha que florear minha entrega e fazer promessas relevantes para encantar os olhos da minha demanda. Tinha que oferecer as soluções específicas e certeiras para engajar as almas em sofrimento...


“Mas eu não me sinto no direito de prometer isso”, retruquei um tanto reticente. E voltei a falar sobre minhas questões éticas, meus valores, meu estilo e jeito de ser. Mas o veredito da moça continuou o mesmo: “Assim, vai ser difícil atrair alguém!”


Nossa conversa seguiu assim num vai e vem de opiniões e questionamentos por vários minutos. Eu, na tentativa de defender meus pontos de vista, minhas crenças, meus fundamentos. Ela, a dizer que tudo aquilo era válido, claro, como não. Mas que eu precisava entender que, no fundo, nada disso ajudava a vender minhas sessões.


No final da reunião, tenho que confessar, eu perdi minha compostura. Perdi minha compostura interna. Não gritei, não ofendi, não demonstrei desrespeito explícito. Mas, implodi por dentro. Fiquei com muita raiva. Meu sangue subiu e na minha cabeça passaram os mais diversos discursos desaforados, que eu ensaiei mentalmente falar para aquela moça, mas acabei não dizendo nada. Terminei a reunião engasgada e derrotada por dentro. Me senti velha, ultrapassada, teimosa e obsoleta. Minha arrogância, meu preconceito e minha falta de humildade me entristeceram profundamente. E a única coisa que consegui fazer foi chorar...


Tempos depois, com a cabeça fria e o coração mais tranquilo me pus a refletir sobre o acontecido e divido com vocês as minhas conclusões.


Muitas e muitas vezes, no meu passado como publicitária, me lembro de ter presenciado inúmeras vezes pessoas mais experientes (leia-se, vinte anos mais velhas que eu) defenderem seus princípios e crenças com ardor, mesmo que estes parecessem antigos ou estivessem caindo em desuso. E me lembro nitidamente do meu olhar em direção a elas: um olhar que misturava uma certa pena, um certo respeito, mas também um certo desdém. Até mesmo um pouco de dó. Lembro-me de lamentar a incapacidade dessas pessoas – muitas delas mentes brilhantes - de enxergar possibilidades novas, de se abrirem para o novo mundo e novos caminhos. E hoje, na proximidade das cinco horas da tarde, foi a minha vez de ser vítima desse olhar. Deste mesmo olhar que eu mesma já tive tantos anos atrás. E tenho que dizer que foi duro, muito duro encarar o fato de que era eu que, nesta situação, estava fazendo o papel de teimosa obsoleta, incapaz de se abrir para o novo, de explorar meus talentos sob uma perspectiva nova e em sintonia com os valores atuais. E desmontei. E chorei. E me desesperei. E cheguei a pensar que não havia mais lugar para mim...


Refletindo sobre o acontecido, me dou conta de que não foi o que ela disse que me machucou. Mas sim o que ela, sem querer, desvelou em mim: minha arrogância de madura, meu discurso velho e antigo, minha rigidez e dificuldade de me encaixar no novo. E eu me vi nua diante de mim mesma. Defendendo o indefensável, me recusando a abandonar um navio visivelmente naufragando. Presa aos meus velhos conceitos como se fossem os únicos possíveis. Visivelmente obsoleta e decadente.


A boa notícia é que, depois da tempestade veio a bonança. Depois da bruma, a lucidez. E, já no dia seguinte, eu era uma nova pessoa. Acordei do meu pesadelo decadente e me pus a trabalhar. Desci do meu salto alto, me abri para as novas ideias da jovem moça empreendedora e, por fim, montei um perfil profissional um pouco mais elaborado, que me pareceu mais vendedor e atrativo para a nova geração. Trabalhei nele durante vários dias e, finalmente, achei ter conseguido ultrapassar minhas próprias barreiras e reinventar uma forma de me apresentar. Saber que eu era ainda capaz de fazer diferente me fez um bem danado e me ajudou a recuperar minha confiança e autoestima. E também a relembrar um pouco dos benefícios que os anos me trouxeram.


Amadurecer não é fácil e situações como esta, que expõe a fragilidade dessa condição de forma tão explícita, são desafiadoras. Por sorte, com a idade adquirimos uma certa sabedoria e é mais fácil e rápido o processo de aceitarmos nossos erros e nos realinharmos aos novos caminhos. E também fica mais fácil saber que nunca é tarde para aprender e que é possível envelhecer com bom humor, humildade e leveza. Que o novo pode ser desafiador, mas não é maior do que nossa capacidade de encará-lo. Que a resistência pode existir, mas não precisa vencer. Que a vida sempre continuará a nos desafiar, sempre, sempre, sempre! E, por sorte, antes da quietude final, sempre teremos a oportunidade de seguir inquietos e aprendendo...



Isabel Coutinho






*clique AQUI para mais textos da Isabel Coutinho.

© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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