Sobre voltar (ou sobre nunca ter saído)




Mais de quatro anos se passaram e muita coisa mudou na minha vida desde a última vez que escrevi uma coluna para o EU NÃO ANOTO NADA.


Lancei um livro, mudei de país, terminei uma pós-graduação, levei um tempão para me adaptar no novo país, fiz cursos, viajei, chorei, trabalhei, saí do trabalho, me questionei, fiz mais cursos, recomecei a trabalhar e aqui estou firme e forte de volta a escrever.


Na verdade, para ser honesta, me sinto mais forte do que firme. Me sinto insistente, persistente, talvez. Firme, definitivamente não.


Digo isso porque, apesar de quatro anos passados e muitos acontecidos, me sento diante do computador sentindo algo muito familiar. Familiar demais para alguém que se esforçou tanto para mudar, se reinventar e se transformar completamente nesses últimos tempos.


E como pode, “meu Senhor!”, uma pessoa que faz tanto para se transformar, se sentir tão igual?


Alguém aí anda cansada de si mesma?


Eu, eu, eu!!!! (e usaria aqui, se pudesse, o emoji da menininha com a mão levantada). Ando tããããããão cansada de mim mesmo! Dos mesmos problemas, dos mesmos dilemas, do mesmo buscar. Queria tanto acordar um dia e, “pá, pum!”, ver que eu estou diferente, que eu, fi-nal-men-te, mudei!


Que deixei de me cobrar tanto, que parei de querer emagrecer, que passei a odiar Nutella, que virei uma pessoa zen e centrada, suuuuper tranquila com o fato de completar quarenta e quatro anos esse ano (QUARENTA E QUATRO ANOS??????).


Que passei a ser mestra da paciência com os filhos (gritar nunca mais!), totalmente tranquila com a perspectiva deles em casa durante o próximo ano escolar (melzinho na chupeta, matei no peito e chutei para o gol) e que a minha ansiedade deu lugar a uma inata capacidade de valorizar o presente e viver no aqui e agora sem nenhuma preocupação com o dia de amanhã.


Que eu passei a me aceitar como eu sou e aprendi a viver a vida com leveza, dançando, cantando e rindo pelo caminhar. Que meu medo de me sentir vazia e perdida quando meus filhos crescerem cessou por completo e que eu, finalmente encontrei meu lugar no mundo, o meu chamado, o equilíbrio entre a minha felicidade pessoal e a da minha família, a perfeita combinação entre meu propósito de vida e a vida de esposa/mãe/filha/dona de casa/mulher/cidadã/ser humano e tudo mais aqui que você quiser colocar.


Enquanto, porém, esse milagre não acontece, volto aqui para falar das minhas mesmices. Das mesmas angústias, das mesmas buscas, das mesmas inquietações que sempre estiveram presentes, me rondando, fazendo parte de mim. Dos pensamentos, desejos e dúvidas que se apossam de mim, uma mulher madura que até já realizou algumas coisas, mas fica se perguntando, afinal, o que é que ainda pode/quer realizar; o que ainda pode/quer fazer de si mesma; o que quer/pode ainda sonhar. E do meu cansaço de não parar de pensar em tudo isso e simplesmente, “deixar a vida me levar”.


Prometo tentar embalar tudo isso em um pacote que pareça novo, quase inédito, igual daqueles produtos que a gente tem vontade de comprar em sua edição de Natal só por causa da caixinha (tão bonitinha!). Mas já aviso, de antemão, que o produto é o mesmo.


De alguma forma, sinto então, que volto sem nunca ter, de fato, partido. Por que sou a mesma, ainda que me esforce para parecer diferente. Ou talvez para descobrir, ao escrever, que estou sim, talvez, um pouco mudada, mas me apego à minha mesmice com medo de ver o novo que se desvela a minha frente. Com medo de me libertar do cansaço de ser eu mesma e abraçar tudo aquilo que posso vir a ser...


PS: vou adorar dividir minhas mesmices com vocês e vou adorar também se vocês quiserem dividir as suas comigo. Perguntas, elogios, descontentamentos, desconfortos serão sempre bem-vindos. Um bom texto é aquele que não acaba em si mesmo, mas sim, é um recomeço de algo. Então, fiquem à vontade para dividir comigo o que este texto começou em cada um de vocês.


Meu e-mail: contato@isabelcoutinho.com


Isabel Coutinho






*clique AQUI para mais textos da Isabel Coutinho.

© 2020 - Eu não anoto nada - por Tati Montenegro

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