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Uma Pausa Na Laje!



Subi para ver o pôr do sol! Eu, meu copo (oops, da amiga) de vinho e meu livro de caça-palavras! Em menos de um segundo, sinto que não estou sozinha, mas com meus pensamentos e sentimentos!

Sabe, eu não me mudei, mas preciso me comportar como se tivesse me mudado e reorganizar meu dia a dia! Quem se mudou foram elas, muitas delas, quase todas elas - as amigas!

Começa agora uma nova página do meu diário. Morar numa cidade transiente é isso, além das etapas novas normais de qualquer pessoa ou família, as pessoas aqui se vão!

Depois de 17 anos em Manhattan, vim morar há 8 anos num bairro com muitas famílias brasileiras. Cerca de 30 famílias ou mais passaram por aqui nesse período. Pessoas de profissões variadas, com idades diferentes e com filhos de diversas idades também. Foi tão inesperado, que meu marido me perguntou se eu sabia e não tinha comentado sobre a existência daquele Brasil na área! Minhas meninas que adoram o Brasil, demoraram um pouquinho para se acostumarem com a língua portuguesa sendo falada em toda esquina, e mais que isso, com a mulherada que não só falava um oi toda hora na rua, mas parava para conversar no caminho ao deixar as crianças na escola, no elevador, no mercado e assim por diante! Minhas meninas chegavam até a falar, mommy, she looks like you! (Ela se parece você, mamãe). She sounds just like you! (E fala igual também).

Eu, feliz da vida, agradecendo a cada segundo, sorrindo à toa, fui me aproximando delas, uma a uma. Nos últimos anos, éramos 18 famílias, em sua maioria casais brasileiros, uma ou outra amiga casada com americano. Entre essas famílias passaram também pessoas famosas muito queridas que se tornaram amigos. Eu meio estonteada pensava assim, direto da telinha para o meu quintal, para a minha sala? Foi como se o Brasil com novela e samba tivessem vindo para os EUA para me complementar, dar aquele aconchego no coração e manter ainda mais acesa a minha alma brasileira. Por mais que eu tenha construído e ame a minha vida com minhas filhas americanas-brasileiras e marido americano, o meu coração dá uma batida a mais assim ao som do nosso português.

E foi então que eu entendi mesmo, já bem adulta, o quão gostoso e importante é ter vizinhos e fazer parte de um grupo - uma community como se diz em inglês. E, foi melhor ainda, pessoas com a afinidade imediata que é ser brasileiro em terras distantes. Fica tudo mais gostoso e leve com amigas, aquela rede de apoio que nos fortalece!

Foram mil momentos memoráveis, um bem marcante foi ouvir o filho de uma recém amiga que me chamou no elevador pelo meu nome em português. Tenho um nome simples, Rose, mas tenta falar em inglês, não soa nada como falamos no Brasil. E ele, me vê e diz: oi Rose! Um dia ele vai entender o bem que me fez! E com o passar do tempo, ele e outras crianças passaram a me chamar de tia Rose. Ai, meu coração, esse pertencer ao que já era meu me ganhou!

Éramos 4 famílias amigas morando no mesmo prédio, e ganhamos até um apelido carinhoso, dado por uma das amigas do bairro. Foi uma fase tão boa, fazíamos passeios culturais, almocinhos e jantares com os maridos quando dava. Com cada uma eu criei uma amizade diferente. Entre boas conversas e aprendizados, já que cada uma tinha morado em um canto do mundo, e também no meio de muitas risadas criamos laços e lembranças gostosas.


Uma delas me conquistou pela simpatia, pelo carisma, pela alegria, pelas risadas e pela naturalidade em tirar o melhor de cada pessoa, habilidade nata e rara. A outra me fez lembrar que o tempo não para, o mundo é maior ainda do que eu lembrava e que existe voo para todo canto; ah, e vi que ninguém gosta e toma mais vinho do que ela. Fiz amizade com uma delas no elevador. Aquela simpatia e a troca de um papo rápido, mas já aconchegante, logo na primeira vez, e minhas filhas: do you know her? (Já se conhecem?).


Aprendi com ela a usar a panela Instant Pot (nem eu acredito, mas comprei uma) e tomamos chazinhos e sopas juntas, e observando o jeito dela, constatei que há pessoas que levam a vida em um outro passo, e desbravam qualquer canto no mundo. Bom, o gostoso é que a amizade resiste à mudança delas!

Vale citar lembranças marcantes de todas as amigas do bairro. De uma ganhei cookies (bolachinhas) caseiros na época a das festas, feijão e farofa feitas por outra. Uma vez minhas filhas foram almoçar na casa de uma delas e comeram salada de fruta, chegaram em casa contando: Mommy, we had homemade fruit salad! (Salada de fruta caseira). Uma certa ocasião, muito espontaneamente jantei na casa de uma delas com toalha de tecido na mesa, e ao som do Jornal Nacional, que sensação boa entre mil outros mimos que quem mora no Brasil pode não perceber o valor que tudo isso tem quando estamos morando no exterior.


Fora as amigas que soltavam piadas e falas em português que me faziam rir intensamente, ou até o uso de um vocabulário que eu ja não lembrava mais, e me fizeram voltar na linha do tempo, e resgatar partes de mim.

E aquela amiga que até o dia da festa ela se esquece, mas como é gente boa e divertida! Quanta gente linda!

Entre tantos eventos, visitamos uma a casa das outras, fomos à praia, fomos esquiar, e fizemos fins de semana só de mulheres!

Há alguns anos, ganhei uma festa de aniversário surpresa na cobertura do prédio, chamada carinhosamente de laje, simplesmente emocionante e inesquecível!

São dezenas e dezenas de momentos que não vou conseguir falar sobre eles aqui. Todas essas amigas, e as famílias me deram apoio para criar minhas filhas, mesmo sem saberem! Afinal, we need a village to raise kids! (ditado africano que diz “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança").

Hoje me vejo aqui, na mesma laje, mas sozinha com um turbilhão de emoções, e já cheia de ideias!

Quanto mais eu escrevo mais eu me lembro delas, do curso de arte, do curso de yoga, do curso de vinho, ou melhor, das risadas nos cursos de vinho! Das aulas de pilates, das idas ao cinema, dos cursos de assuntos pertinentes aos EUA, das visitas aos museus e galerias, das idas ao mercado, das caminhadas com os cachorros, das atividades para crianças conduzidas no parque por uma das amigas etc. E, principalmente, da animação do grupo todo e das risadas, muitas gargalhadas! Enfim, a convivência foi intensa no decorrer desses anos!

Aquela época de grandes comemorações de todos os tipos, aniversários, despedidas e encontros espontâneas na nossa querida laje, se foi! Passou!

Somos agora bem poucas famílias no bairro e no prédio, e sei que assim que as férias de verão terminarem a gente vai se encontrar aqui e ali!

Tenho várias amigas brasileiras de longas datas, e sigo aumentando meu círculo de amigas! É isso, deixar a vida fluir!

Sou muito grata por tudo!


Comemorei com elas num café da manhã em casa com pão de queijo e bagels (um pão pequeno no formato de um aro) quando completei 20 anos nos EUA, e me lembro que usei a famosa frase com elas, “que seja eterno enquanto dure”! E foi!

Como costumo brincar, sigo firme e forte como a Estátua da Liberdade ! Pelo menos por enquanto…

Não posso deixar de contar que cheguei até à revista digital EU NÃO ANOTO NADA por meio de uma amiga querida que também morou no mesmo bairro e se mudou, mas não sem antes deixar a marca registrada dela que é a delicada atenção e o cuidado com todos! Ah, e ela se expressa bem, mas muito bem na escrita!

Opa! O celular toca: mommy, where are you? We are feeling orphans!

(Cadê você? Estamos nos sentindo órfãs aqui!)

Eu dou risada porque minha filha é comediante mesmo, mas penso:

So am I! (Eu também estou!)

Mas só falei: tô descendo!

Por hoje é isso!

Curtam suas amigas e amigos,

e até a próxima!

Rose Sperling


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