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Inferno Astral



Estava eu às vésperas de completar meus 60 anos, refletindo sobre minha vida até aquele ponto. Completava 17 anos divorciada. Um casamento que definhou com o tempo. Um dia percebemos que não fazíamos mais sentido um para o outro. Nos perdemos pelo caminho. Talvez a correria com filhos e carreiras tenha sido a grande culpada desse fim tão desanimado.


Tenho uma carreira com muitos desafios mas posso me considerar vitoriosa. Fui me fortalecendo a cada um deles e talvez eles tenham sido a chave para que alcançasse tudo que alcancei.


Mesmo trabalhando muito eu consegui ser uma boa mãe e estar presente grande parte do tempo e acompanhar o desenvolvimento do meu filho de forma saudável sem precisar delegar a ninguém o meu papel. Meu filho é um homem de bem, honesto, trabalhador e de um coração enorme! Minha futura nora é uma mulher de sorte pois tem ao seu lado um grande parceiro para a vida.


Mesmo divorciados, seguimos amigos pois em nenhum momento houve briga e nem discórdia. Apenas entendemos não ter mais sentido juntos. Comemorações como Natal, Páscoa e aniversário do meu filho ou de nossos familiares, estamos sempre presentes em paz.


Meu ex marido encontrou um novo amor e já está casado há 10 anos. Ela não é minha amiga, mas conseguimos conviver pontualmente sem problemas. Ela o faz feliz e não atrapalha meu filho então tá tudo certo.


Eu segui sozinha. Não encontrei ninguém e para falar a verdade, também não procurei. Minha carreira estava em um ponto forte e decidi me dedicar mais ainda para hoje estar na posição que me encontro, colhendo os frutos do meu trabalho e dedicação, podendo ser mais dona do meu tempo. Confesso que não senti falta. Talvez achasse que já tinha vivido o que tinha para viver nessa área e me dei como satisfeita.


Não me enclausurei. Mantive minha vida social com encontros com amigos e viagens. Como eu e meu ex marido não brigamos, nossos amigos não precisaram escolher lados e permaneceram amigos dos dois sem problemas. 


Acho que foi o destino mesmo. Não conheci ninguém nesse período, ninguém que despertasse nada em mim.


Uma grande amiga minha de infância é super mística e tem grandes dissertações sobre o período que antecede o aniversário, o tal do "inferno astral". Como eu iria completar 60 anos, ela começou a "trabalhar" meus dias assim como quando eu fiz 50, um mês antes. Vinha com sugestões de restaurantes novos para experimentar, lugares diferentes para conhecer ou cursos para experimentar. Quando ia fazer 50 ela nos inscreveu em um curso de origami! Sim! Dobradura japonesa! Uma atividade que não combina nada comigo, que não tenho nenhuma habilidade manual e nem a paciência necessária, mas fiz por consideração, pela alegria dela de me convencer a fazer algo tão diferente.

Um mês antes do meu "inferno astral", eu já estava tentando imaginar o que ela iria inventar, mas já estava rindo sozinha pois tinha certeza que garantiria boas risadas. Foi então que ela apareceu com uma viagem de bicicleta por vinícolas.


Confesso que dessa vez ela se superou. Eu não bebo (não por nenhum grande motivo, apenas não gosto) e a última vez que andei de bicicleta eu devia ter uns 10 anos! Hoje eu faço pilates e um pouquinho de yoga que considero necessário para equilibrar, mas nada que exija tanto esforço físico como andar de bicicleta.


Eu comecei a rir, um mix de nervoso com um certo desespero pois sei que ela não ia me deixar em paz e que teria que acompanhar a ideia de qualquer maneira. 


Lá fui eu e ela. Eu confesso que de bicicleta eu só andei para foto, fui no carro de apoio. Não tinha preparo e corria o risco de virar um problema. Provei todos os vinhos mas realmente beber não deve estar na minha lista mesmo. Fiquei só na degustação. Aproveitei mais o que acompanhava os vinhos, a água e a comida. Aproveitei do meu jeito.


Na última vinícola estava acontecendo um casamento. Era uma celebração pequena, mais intimista mas de extremo bom gosto! Nosso grupo pediu para assistir de longe porque estava tudo realmente muito bonito.


A noiva deveria ter uns 20 e poucos anos, tinha aquele brilho no olhar que mostra a nossa sede de viver como se a vida fosse infinita! Entrou acompanhada pelo que imaginamos ser seu pai pelo estado de emoção, um mix de felicidade e medo de "entregar"sua filhinha. No altar um jovem que transbordava orgulho à espera de sua futura esposa.


Por um instante eu achei que o pai da noiva era familiar mas a emoção da cerimônia tomou conta de mim e acabei me desviando da sensação. Ficamos todos ali admirando e acho que nos fizemos notar. Éramos um grupo pequeno, 7 pessoas, mas acabamos chamando atenção da festa.


Um casal muito simpático e animado, logo após a cerimônia, veio de encontro ao nosso grupo para nos convidar a brindar com os noivos. Se apresentaram como pais do noivo e disseram que faziam questão que participássemos! Aceitamos o convite e nos juntamos a eles para o brinde e o bolo!


Foi muito gostoso aquele momento! Ao participar daquela celebração, conseguimos sentir todas as emoções que envolvem um casamento! De um lado as expectativas dos noivos cheios de sonhos e paixão, a cumplicidade dos amigos e familiares, os medos das famílias que nesse momento acabam se sentindo como se perdessem seus filhos para suas próprias vidas.


Estávamos começando a sair quando escuto alguém me chamar pelo meu apelido de infância! Olhei assustada para tentar entender de onde viria aquele chamado quando encontro, logo atrás de mim, o pai da noiva com um sorriso maroto, repetindo meu apelido!

Aquela sensação familiar que tive quando o vi levar a filha ao altar se intensificou e pude reconhecê-lo com os anos acrescentados à última imagem que guardei. Era ele, meu primeiro grande amor! Meu namorado de quando tinha 16 anos!


Namoramos por 10 meses e a família se mudou para fora do Brasil e nunca mais voltou. Mantivemos contato por um tempo, mas a distância e a falta de perspectiva de nos encontrarmos novamente fez com que parássemos de falar e cada um seguiu sua vida.

Mas ele marcou minha vida. Foi uma grande paixão, foi intenso e deixou muitas saudades. Ao longo da minha vida, por diversas vezes eu me peguei imaginando como teria sido se tivéssemos ficado juntos, tentando imaginar como teria sido sua vida, sua família…


E aquele amor estava ali na minha frente sem esconder o quanto estava feliz com o reencontro. Curioso para saber de mim, o que fiz, por onde andei.


Devido à circunstância, não trocamos muitas palavras, só telefones para nos encontrar assim que possível e colocar o assunto em dia.


Nos encontramos na semana seguinte quando nos atualizamos sobre a vida de cada um. Ele havia se casado, teve uma filha e sua esposa havia falecido há 17 anos. Desde então ele se dedicou à filha e ao trabalho permanecendo sozinho.


Desse encontro vieram outros, chegou meu aniversário de 60 anos, depois mais encontros, viagens e outras comemorações. Esse ano farei 62 anos e um mês antes do meu aniversário, vou me casar com ele naquela vinícula.


Não terei o mesmo olhar da minha enteada em seu casamento que me chamou a atenção onde mostrava a expectativa da vida não ter limites mas trarei a certeza que a vida não tem regras e muito menos manual. Que não existe idade para paixões, encontros ou reencontros.


Sou muito grata à minha querida amiga que me tirou da zona de conforto tantas vezes me desafiando a experimentar coisas novas. Ela me fez mudar de caminhos para que eu encontrasse o meu!


Leitora Anônima

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