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O Carnaval do acaso



Alguns dias antes do carnaval precisei resolver uma diligência em um prédio situado no centro antigo de Salvador.


Deixei o carro em um estacionamento  um pouco distante do endereço e saí andando pelas ruas de pedra, encantada diante dos muitos ângulos que descortinavam o mar calmo da Baia de Todos os Santos, em uma cidade que teima em ser bela.


Na região ainda se instalavam diversas lojas de comércio popular com uma comissão de frente que exibia para a venda, todos os tipos de enfeites carnavalescos...


Apesar de estar apressada e resoluta quanto ao que me levava até ali, fui me inebriando entre lantejoulas, serpentinas, brilhos e coloridos, até porque as festas de Momo são sempre um assunto pelo qual me distraio ...


De repente avistei, esquecido entre tantos outros adereços menos empoeirados, um que serviria para compor a minha fantasia, parei para saber o preço quando dono do estabelecimento assim me disse: isso está aqui por um acaso porque uma senhora comprou ano passado, pagou, saiu dizendo que voltava para buscá-lo e nunca mais apareceu.


Segui animada conversando com um e com outro até me dar conta do adiantado da hora, o qual me fez colocar a alegoria embaixo do braço e partir até o meu ponto final para não  correr o risco de ter que retornar em outro dia .


Ao chegar no destino, um jovem rapaz abriu a porta, desejou-me um bom dia, ofereceu-me um cafezinho e foi embora. Senti nele um cheiro de aguardente e observei que levava sob a camisa algo prateado, ao qual minha miopia, ainda resistente aos óculos,  deduziu ser um recipiente daqueles em que se põe algum tipo de bebida alcoólica para levar à rua durante os dias de Folia  .


Lamentei com Meus Botões que um jovem tão educado estivesse rendido aos malefícios do álcool, ainda utilizando o aditivo em pleno ambiente de trabalho.


Estranhamente não havia uma alma viva no lugar e fiquei a esperar que alguém  aparecesse.


O tempo foi passando e resolvi perguntar tem alguém ai? Fiquei sem resposta, mas a medida que fui subindo o tom da pergunta ouvi um pedido de socorro sussurrado.


Fui em direção ao pedido e cheguei a um cubículo onde 6 pessoas haviam sido trancadas, após terem sido depenadas pelo bom moço que me recebeu e em cujo cantil, o qual somente meu espírito festivo enxergou, carregava munição necessária ao funcionamento da pistola automática.


Não consegui abrir a porta, desci para pedir ajuda aos comerciantes com o coração em pulos e as pernas trêmulas,  pensando no que aqueles inesperados 5 minutinhos de samba enredo conseguiram me livrar.  


“O  acaso vai me proteger enquanto eu andar distraída “ Sergio Brito.


Claudia Lacerda

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