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O enterro da boneca



Quando criança, eu não era muito chegada a bonecas. As que eu tinha eram fora dos padrões, tatuadas de caneta, cabelos picotados bem curtos. No meu imaginário de criança, eu não as fazia mães ou dedicadas donas de casa, mas vereadoras, domadoras de leão, cantoras, xerifes, professoras.

Pois bem, exatamente a Xerife chegou a um estado deplorável, tendo inclusive as pernas arrancadas e sem condição de recuperação. De maneira que eu tive que declarar sua morte.

Talvez já reconhecendo em mim a advogada que eu seria um dia, eu não achei digno uma combatente como aquela ser enterrada na condição de indigente. Defendi que era merecedora das devidas homenagens póstumas. Impregnada pelo desejo de fazer alguma coisa, eu fui tendo uma ideia mais estrambólica do que a outra:

A arrecadação de fundos: eu angariei fundos pela vizinhança para realizar um funeral decente.


A mentira: eu disse que se tratava do enterro de uma moça pobre, não de uma boneca, já que acreditava que as pessoas não se comoveriam com aquele tipo de dor e não seriam solidárias com meu propósito.


O figurino: eu produzi um figurino compatível com a ocasião e um enredo convincente que contemplava lamúrias e choro.


Minha irmã, companheira das que nunca fogem à luta, topou na hora e nós saímos, devidamente paramentadas com os véus pretos que minha avó, católica fervorosa, usava para ir às missas, pedindo doações, de casa em casa, na rua onde morávamos na pequena cidade do interior da Bahia.


Protagonizamos uma cena hilária onde nos debatíamos entre interpretar uma tragédia e ter que segurar o riso da comédia de nossa própria aventura, o que além arrancar sonoras gargalhadas da vizinhança, rendeu um dinheirinho (coisa de uns R$5,00 em moeda de hoje).

Quando retornamos, meu avô perguntou a origem daquele dinheiro e ao saber ficou muito chateado!


- Isso foi ideia sua, não foi dona Claudia? (sabia que por trás de boa parte das traquinagens havia minha autoria intelectual).


- Pois, voltem lá, contem a verdade, devolvam o dinheiro e peçam desculpas às pessoas pela mentira de vocês.

Não consegui convencer meu avô a desistir do castigo, tampouco emplacar alguma outra ideia incrível... O jeito foi, envergonhadas, fazermos o percurso de volta, sem os véus, no entanto vestidas da mais pura verdade, levando, inclusive, os restos mortais da Xerife, como prova, na tentativa de convencer os doadores a aceitarem as moedas de volta.

As vizinhas choravam de rir, mais uma vez, com o desfecho da história e solidárias com a saga da boneca, doaram flores dos próprios quintais para, finalmente, a Xerife ter um velório honrado.

Sempre que Meus Botões me recordam essa passagem da infância, refrescam minha alma com as mesmas gargalhadas da vizinhança e não me deixam esquecer que não devemos silenciar diante de nenhuma indignidade.


No entanto, nenhum propósito é grandioso se levado adiante de maneira desonesta. Todos tem o direito de chorar suas perdas e enterrar seus mortos, ainda que seja apenas uma boneca em frangalhos.


E, como diz Caetano: "- Se você tem uma ideia incrível é melhor fazer uma canção".


Claudia Lacerda



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