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DOIS GATOS PINGADOS



Em tese, fora da lei é aquele que não respeita as leis de uma sociedade. Ela deve ser uma dessas figuras!


Estava estudando para a prova de Teoria do Jornalismo e Semiótica I e o cansaço tomou conta do meu corpo.


Meu sonho era ser jornalista e somente após os 40 anos tive consciência de que a minha primeira formação não me satisfazia plenamente. Porém, não tenho mais os meus 17anos, idade que ingressei na faculdade e optei por cursar publicidade e propaganda.


Naquele dia, por volta das 19h, cheguei do trabalho e decidi comer um sanduíche na Lanchonete da Cidade. Naquela despretensiosa - mas tradicional – lanchonete, “me encontro” e consigo sentir a cidade presente, de alguma forma, dentro de mim.


Descansando a cabeça e tomando uma água tônica zero, olhei para a mesa ao lado e, nela, uma mulher sentada, sozinha, comendo batatas fritas e olhando ao celular.


Cruzamos os olhares e, por conta do lindo sorriso dela, passei a prestar atenção nos seus movimentos.


Nossos sanduíches chegaram quase no mesmo instante e a diferença entre eles claramente estava na quantidade de calorias de cada um dos pedidos. Um “Amarelinho” na minha mesa e algo como um “Queijo Quente” na mesa dela.


Colocando em prática um pouco de Semiótica Peirceana, notei que ela não se vestia com marcas luxuosas, não portava uma bolsa Prada ou um relógio Cartier. Mas, sua elegância era única.


Por alguma razão, começamos a conversar e, em algum momento, ela se dirigiu a mim e perguntou:

- E você, faz o que? 

- Eu trabalho e estudo! Respondi daquela forma bastante automática e sem medir o impacto que essa resposta poderia causar.

- Estuda? Como assim!? Pergunta ela, franzindo a testa.

- Sim, eu estou na minha segunda formação e faço faculdade de jornalismo. Respondi com certo orgulho


Continuamos a conversa e o papo estava realmente gostoso. Ambos sem pressa e quase que simultaneamente, pedimos as respectivas contas.


É gostoso quando as coisas acontecem naturalmente e, assim, sugeri tomarmos um café na Le Jazz Boulangerie. Não tão distante dali, em 15 minutos estávamos sentados à mesma mesa.


Ocorre que, realmente, o papo estava bom e pontualmente às 22h a gentil garçonete perguntou se ainda iríamos fazer mais algum pedido. Notamos que a educação dela havia sugerido que o estabelecimento estava fechando.


Até aquele momento, parecia que a jornalista era ela. Era uma enxurrada de perguntas e nem sempre havia conexão entre os assuntos.


Há algum tempo optei por não ter mais carro e passei a usar Uber. Então, novamente fiquei na dependência de um eventual convite dela para esticarmos a conversa. E assim aconteceu.

- Que tal continuar essa conversa em algum lugar aqui por perto?

- Conheço um bar muito descolado chamado Huevos de Oro, da competentíssima Daniela Bravin. Sugerindo, obviamente, algo um pouco mais intimista, clima descontraído e boa comida ao mesmo tempo.


No caminho, algumas risadas, trocas de elogios, falamos sobre família, futebol e livros.


Chegando no restaurante, como era de se esperar, a proprietária e sommelier estava presente e sugeriu uma taça de vinho branco espanhol. Como sempre, “acertou na mosca” e aquela taça rendeu outra, acompanhada de batatas bravas e Haruki Murakami.

Sim, esse autor me persegue!


Naquela semana, tinha acabado de ler “Homens sem mulheres” e estava com os sete contos bem frescos à minha mente. E estar com ela, pela terceira vez na mesma noite, em lugares completamente distintos, transmitia a mim uma sensação de que o autor estava nos observando para escrever uma oitava crônica.


Murakami está do outro lado do mundo e, talvez, por conta das duas taças de vinho, essa sensação tornou-se quase real para mim.


A conversa foi ficando mais quente e começamos a falar sobre assuntos mais íntimos.

Pela terceira e última vez, pedimos a conta.


Dessa vez, ao invés de irmos para o carro, abruptamente mudamos a rota. 


Antes de descermos a estreita escada, ela me puxou pelo braço. Me vi dentro de um banheiro e a distância que nos separou nos últimos dois trajetos de carro, havia sido encurtada. Começamos a nos beijar ardentemente. A temperatura esquentou ainda mais e voltamos, juntos, aos 17 anos de idade dentro daquele banheiro.


Do auto falante ouvia-se Ed Motta cantando:

“Dois gatos pingados fora da lei

Ela é a rainha, eu o rei

Farra no telhado fora da lei

Tudo bem.

Sobe desce muros fora da lei

Ela sai por onde entrei

Gritos e sussurros fora da lei.”

 

Me peguei pensando sobre a tal atração por ela desde o primeiro momento em que a vi, e o beijo no banheiro apenas intensificou essa conexão. Seria possível se envolver tão profundamente com alguém em um curto espaço de tempo? Tesão ou paixão?


Por um lado, me sinto empolgado com tudo e com a intensidade do momento, mas continuo a me perguntar se existe algo a mais, talvez uma conexão entre signos, coisa que nunca acreditei.


Inconformado com a falta de controle de tudo aqui, afinal, não estava no meu planejamento, busco algo racional e me deparo com emoções e sensações. Uma espécie de pânico me consome, afinal, são as mulheres que se deixam tomar por emoções e naquele momento tinha sido eu. Sigo pensativo, tudo isso no meu modo de pensar até aquele momento, não era possível. Onde foi que ela me fisgou?


Homens e mulheres são tão diferentes. Os homens seriam de Vênus ou de Marte?

A única certeza que eu tenho é que sei muito pouco sobre esse universo das emoções.


Quem sabe um dia eu a encontre novamente e ela consiga me explicar melhor.

 

Música sugerida: Fora da lei, Ed Motta

Vinho sugerido: Lolo Albariño

 

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