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Luzia



Luzia acordou estranha naquela manhã. Isso acontecia de vez em quando, sem muita explicação. Saiu da cama sem fazer muito barulho e foi passar o café. Ao sentir a casa quieta, agradeceu baixinho. Teria um tempinho a sós antes de todos acordarem. Sempre achou a melhor parte do dia, essa do café. O barulho dele passando, o cheiro fresco, a promessa de coragem para enfrentar o que se tem pela frente. No caso dela, o último dia do ano.

 

Seu corpo se contraiu com medo e aflição: o relógio acabara de marcar oito horas e tinha ainda muito dia pela frente para enfrentar. Se envergonhou. Tanta gente vivendo tantas coisas ruins: guerra, fome, miséria. E ela, apenas aquele dia! Se sentiu ainda pior. Egoísta, ingrata. Olha como está o mundo e você, aí tranquila, em paz, numa boa. Essa tristeza não fazia o menor sentido!

 

Não fazia mesmo. Nem para Luzia. Mas essa constatação parecia não ajudar. Pelo contrário. A sensação de angústia no peito, nó na garganta e lágrimas prestes a explodir só se intensificavam. Imediatamente, abortou os planos para aquela manhã - se exercitar, limpar um pouco a casa, lavar roupa - e se recolheu ao seu quarto, à sua cama, parte favorita da casa (e do mundo) nos últimos tempos.

 

Ao deitar no travesseiro, não conseguia tirar da cabeça um vídeo do Instagram que vira a pouco. Um casal de amigos se exercitando felizes no último dia do ano. Como queria ser assim! Ter dentro de si essa força que via nos outros, essa coragem, essa determinação para fazer acontecer, para correr vários quilômetros, para enfrentar os dias com a certeza da vitória no final. Ela se acovardava tão facilmente! E tão recorrentemente... Veja só esse dia, ponderava. Não há nada de urgente a se fazer. Não há trabalho, não há obrigações. Mas mesmo assim você se esconde de baixo dos lençóis e reza para o tempo passar rápido, de pressa, bem depressinha, assim chega a hora de dormir, a melhor do dia. A do café e a de dormir. As melhores. As mais esperadas. As mais apreciadas. E tudo que acontece entre elas, apenas um recheio sem sentido, sem prazer, sem vida.

 

Luzia achava estranho quando tudo que se referia ao viver pudesse ser visto como um simples recheio entre o café e a hora de dormir. Uma vida para preencher espaços? Uma vida sem vontade? Uma vida sem vida?

 

Nos dias como este, as interações sociais, mesmo dentro da família, se tornavam particularmente difíceis. O corriqueiro bom dia exigia esforço e concentração. A voz parecia se recusar a sair e as lágrimas ameaçavam explodir sem aviso prévio, traindo sua tentativa de manter a compostura e fingir normalidade. Sim, fingir normalidade era uma constante na vida de Luzia. Ela já estava até ficando boa nisso. Não importava se, por dentro, estava em frangalhos. Por fora, mantinha um sorriso distante, fazia as tarefas de casa, tentava agradar os filhos com comidinhas gostosas e com a casa mais ou menos arrumada.

 

Ao se render ao conforto da cama, Luzia chorou. Chorou um choro sentido, soluçado, doído. Chorou por si e também pelos outros. Tantos outros que viviam histórias difíceis nesse mundo afora. Chorou pela jovem mulher que bateu o carro na árvore e perdeu sua vida pouco antes do Natal. Chorou pela dor da senhora sorridente que encontrou na pequena vendinha da cidade comprando duas enormes garrafas de um vinho barato para enfrentar a solidão da passagem de ano sem a presença da família e com o marido adoentado. Chorou pela gerente do restaurante que, dias antes, num encontro breve, disse estar satisfeita com a troca de trabalho, mesmo que isso lhe custasse a passagem de ano longe dos queridos e trabalhando até as duas da manhã. Chorou pelo senhorzinho encurvado que insistia em andar pela rua principal, todos os dias, embaixo da neve, chuva ou sol. Como ele arranjava forças para isso, Luzia não entedia. Chorou pela Maria - a Da Paz ou Das Dores? - que por tantos anos cuidou dela e de sua casa, mesmo vivendo as maiores atrocidades dentro de seu próprio lar. A Maria que varava a noite fazendo ovos de páscoa caseiros para complementar a renda e, mesmo assim, aparecia no dia seguinte pontualmente as sete da manhã no seu trabalho. Sempre sorrindo, com fé em Deus e sem reclamar. Chorou pelos personagens do livro que estava lendo que, ainda que fictícios, representavam tantos brasileiros cuja fome, a dureza do trabalho e a falta de dinheiro e perspectiva eram uma constante desde o dia do nascimento até a morte. Chorou por horas. Chorou suas dores, as dores dos outros, as dores do mundo. Chorou.

 

E depois que chorou, as lágrimas, de repente, foram indo embora. E ela se sentiu mais forte. Conseguiu se levantar, lavar o rosto e sair do quarto. Fez o almoço, preparou a sobremesa da festa de Réveillon, arrumou o prato de frios. Conversou com um filho, deu um beijo no outro e até desejou um feliz ano novo a alguns amigos e conhecidos. Dormiu o restante do dia e acordou, aliviada, quase na hora de sair. Já era noite e o dia tinha passado. Amém! 

 

Logo após a meia noite, voltou para casa da pequena confraternização com os amigos. Acomodou os filhos e foi dormir. Antes de pegar no sono agradeceu pelo dia ter, finalmente, terminado. Abraçou o sono com alívio e entrega. Amanhã é um outro dia, um outro ano. Ufa!

 

Naquela noite, Luzia sonhou. Sonhou que no dia seguinte acordava feliz, tomava seu café e vivia as horas e minutos com alegria e leveza, sem ansiar - sem nem sequer lembrar! - que mais tarde haveria de chegar a tão antes sonhada hora de dormir...


Isabel Coutinho

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